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Profa. Dra. Magda Soares


Para essa edição da Revista Perspectivas em Educação, o Prof. Fábio Moraes entrevistou a Profa. Dra. Magda Becker Soares. Ela possui graduação em Letras Neolatinas pela Universidade Federal de Minas Gerais (1953) e é doutorado em Didática pela Universidade Federal de Minas Gerais (1962). Atualmente é MEMBRO da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, MEMBRO DE COMITE ASSESSOR do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CONSULTORA da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, CONSELHEIRA da Communitee Economique Europeen, PROFESSORA TITULAR da Universidade Federal de Minas Gerais; também é escritora de diversos livros de sucesso, por exemplo: “O ensino da Língua Portuguesa e Literatura brasileira 2° grau. Questões metodológicas”. Brasília, MEC, 1981; “Linguagem e escola: uma perspectiva social”. São Paulo, Ática, 1986; “Um olhar sobre o livro didático”. Belo Horizonte, Dimensão, 1996; “Letramento: em tema três gêneros”. Belo Horizonte, Editora Autêntica, 1998.

 

Revista Perspectivas – Sabemos de sua vasta experiência acadêmica com relação aos temas de alfabetização e letramento. O que a levou a pesquisar tais temas, quais foram as suas motivações?

MAGDA SOARES – Fiz minha formação em nível de graduação, em Letras, e, no nível da pós-graduação, em Educação.  Reuni as duas áreas para realizar meu objetivo de dedicar docência e pesquisa ao ensino da língua materna. Meu foco, nessa temática, foi se afunilando ao longo do tempo: inicialmente, formava professores, pesquisava e publicava tendo como foco o ensino de português nas séries finais do ensino fundamental; quando minhas experiências e pesquisas evidenciaram que a questão principal estava nas séries iniciais, me voltei para elas; finalmente, concluí que, nessas séries iniciais, o problema mais sério, o que demandava mais intensamente estudos e pesquisas, era a aprendizagem inicial da língua escrita, numa concepção de integração de alfabetização – apropriação do sistema alfabético-ortográfico de escrita – com letramento – desenvolvimento de habilidades de uso da escrita nas práticas sociais.  É a isso que venho me dedicando nos últimos anos.

Revista Perspectivas – Sabemos da diferenciação dada pela senhora com relação aos conceitos de alfabetização e letramento – onde ser letrado é mais que ser alfabetizado – por que se entende desta forma?

MAGDA SOARES – Enquanto nosso grande problema foi tornar a população brasileira alfabetizada, não víamos, e talvez nem precisássemos ver, para além do ensino e aprendizagem do sistema de escrita – nosso objetivo era que crianças e adultos aprendessem a ler e escrever. À medida que fomos resolvendo esse problema, foi ficando evidente que não basta que os indivíduos – crianças e adultos – saibam ler e escrever, verbos usados sem complemento; é necessário que saibam ler e escrever diferentes tipos e gêneros de textos, com diferentes funções, em diferentes portadores, em diferentes situações. Ou seja: é necessário que sejam não só alfabetizados, mas que sejam também letrados.  Nosso objetivo deve ser formar cidadãos que saibam ler e escrever e saibam fazer uso da leitura e da escrita nas práticas sociais que envolvem a língua escrita; em outras palavras, faz parte da cidadania o domínio pleno das práticas de escrita que circulam na sociedade.

Revista Perspectivas – Gostaríamos de saber, ainda que seja uma pergunta bastante ampla e reducionista, onde se encontra(m), aos seus olhos, o(s) problema(s) da educação em nosso país?

MAGDA SOARES – A pergunta é, sim, ampla, por isso vou me limitar a respondê-la em relação à área em que atuo – o ensino fundamental, particularmente no sistema público.  Acredito que o grande problema da educação em nosso país, hoje, no que se refere a essa área, é a formação de professores. Penso que a formação de professores em cursos de licenciatura e de Pedagogia está defasada e inadequada para o estado atual das ciências, tanto das ciências que informam os conteúdos das disciplinas, quanto das ciências pedagógicas que informam os modos de ensinar.

Revista Perspectivas – Qual seria uma possível solução?

MAGDA SOARES – Para o problema a que me restringi na resposta anterior, a solução seria uma reformulação tanto dos cursos que se responsabilizam pela formação inicial dos professores quando dos projetos e programas de atualização, aperfeiçoamento, especialização de professores já integrados ao mercado de trabalho. 

Revista Perspectivas – Esta revista é do curso de Pedagogia, por isso seria interessante ouvir da senhora alguns princípios que deveriam nortear a formação dos futuros professores.

MAGDA SOARES –
Considero que o curso de Pedagogia é o responsável pela formação dos professores de mais fundamental importância na formação do cidadão brasileiro: os professores que atuam nas séries iniciais do ensino fundamental e na Educação Infantil.  Nesses níveis é que se constrói a base indispensável para o que se desenvolverá depois. Para me limitar à minha área de docência e pesquisa, é nesses níveis que se alfabetiza e se introduz a criança no mundo da escrita, no letramento. Assim, o curso de Pedagogia precisa formar professores competentes para a alfabetização e o letramento das crianças, o que em geral não tem acontecido. Poucos cursos de Pedagogia incluem disciplinas específicas para alfabetizar e letrar crianças: faltam os fundamentos necessários, sobretudo das ciências linguísticas (fonologia, psicolinguística, literatura infantil) e da psicologia cognitiva, e o relacionamento desses fundamentos com a prática didática, de modo que pedagogos saibam por que fazer e, em consequência desse saber, saibam como fazer. 

 
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