A ARENA DA SALA DE AULA

Elaine A. S. Camanho Lopes*

 

A cultura do aluno, de um modo geral, tem sido colocada como alheia à vida em sala de aula, transformando o sistema escolar em ricos depositórios de sistemas ritualísticos de papel crucial e inerradicável no conjunto da existência do estudante. Desde muito cedo, já nos primeiros anos de escolarização, há demonstrações variadas de conflitos para denunciar a necessidade de uma ressignificação simbólica que tente reconstruir, dentro do ambiente escolar, uma realidade condizente; os gestos, muitas vezes interpretados como um desvio de conduta, são, na verdade, o que busca simplesmente obrigar uma reflexão à realidade que o aluno não encontra no meio escolástico. Uma negação, na maioria das vezes inconsciente, à discrepância de um sistema contraditório.

As características teatrais que, por vezes, a postura de alunos e professores sugere, demonstra de ambos os lados, várias formas de resistência à instrução. Do lado docente a resistência à instrução que possa a vir do aluno e, do lado discente, a negação do “saber” que o professor venha a propor, geralmente, numa relação verticalizada. Dessa forma há um esfacelamento das relações de aprendizagem e o principal foco dessas relações conflituosas está na incapacidade do estabelecimento das relações de alteridade.

Transmitem-se ideologias sociais e culturais através desses ritos intrínsecos à escola, e a análise sistêmica desses processos pode possibilitar o entendimento de como as ideologias funcionam, como a transmissão de códigos culturais são moldados e moldam as percepções de e a compreensão de alunos  e professores. Tais atitudes inscrevem certa “gramática simbólica” profunda de cultura. São modelos gestuais e rítmicos que fazem parte de um processo de negociação entre vários outros sistemas simbólicos. São modelos salutares que nos servem como matéria subjetiva no exame de como os estudantes, desde muito cedo, codificam e mantêm suas imagens do eu e da micro sociedade que a escola compõe. Analisar esses aspectos é ainda uma forma de obtenção de referenciais coletivos do simbólico e à experiência localizada da classe social de um grupo. São eventos políticos, que o cotidiano das práticas mesmas não são capazes de observar com propriedade. Há necessidade que a solução parta de uma observação generalizadora dos fenômenos, uma percepção de suas regularidades para, por fim, afastar-se e delimitar essas problemáticas em ações que interfiram nesses fatores:

A fenomenologia, por pretender a formação dos modos de ser de toda experiência ou categorias, parece não poder submeter-se a outro método de que não aquele constituído, fundamentalmente, pela coleta de elementos de incidência notável e pela posterior generalização de suas características. As três faculdades requeridas podem assim, ser resumidas como ver, atentar para generalizar, despindo a observação de recursos especiais de cunho mediativo. (...) - o cotidiano, o imediatamente experienciável, o senso comum assumirão estatuto de pedra basilar na construção do pensamento. Além disso, por fazer da vida o seu laboratório, cujo instrumental são as três faculdades descritas, a fenomenologia torna-se uma ciência muito simples de ser praticada. (IBRI, 1992, p. 8)

O estudo de símbolos ritualísticos, de acordo com Mclaren (1986), está atrelado ao processo de criação dos grupos sociais e exigem o ir além de concepções de classe e de história que aflige, por exemplo, o marxismo. Os rituais institucionais que são contestados pelos alunos, vêm requerer uma pesquisa educacional direcionada a uma relação com alguns insights obtidos, mas também com uma perspectiva teórica e metodológica que capaz de perceber essas formações culturais inter-relacionadas e os sistemas de rituais.

É fato que os símbolos criados nesse processo de negociação tornam-se instrumentos de mediação, que capacitam os diferentes sujeitos a uma flexibilidade da realidade, na medida em que aparecem num campo fenomenológico de poder conotativo e polissêmico. 

Mas deve se considerar que a simplicidade em lidar com estas questões não pressupõe o que Freire (1996) chama de desrigor. Na medida em que essa simbologia possui um caráter incongruente e multivalente é correlato dizer que também são inefáveis. Essas características entram em ação simbólica com poder de circulação cujas visões são altamente complexas. Podem ainda condensar a representação de muitas coisas através de uma única formulação e unificar significados em pólos normativos e psicológicos (TURNER, 1979, p.146,147). Turner (1974, p. 55) salienta ainda que, é através de um intercâmbio entre os pólos efetivos e normativos do símbolo/ritual, que o obrigatório é tornado desejável, o experienciável recebe orientação de conceito.

Para Peirce (SANTAELLA, 2004) o fenômeno constitui-se como uma entidade experienciável e é preciso conceber, a priori, a sala-de-aula como um solo fértil de fenômenos descontínuos, enredados em competições e conflitos, apresentados no que Maclaren (1992) denomina de arena simbólica, palco no qual alunos e professores lutam para promover a interpretação de metáforas e estruturas de significados. Há nessa relação uma concomitância de questionamentos simbólicos de costumes às mitologias e paradigmas, um relacionamento truncado entre os corpos formais, quanto à informação do conhecimento estritamente escolar. Trata-se aqui da questão conflituosa entre o currículo oculto e o currículo explícito. Este enfrentamento está diretamente ligado às perspectivas fundamentais que os educadores utilizam para planejar e avaliar os fenômenos que ocorrem nas escolas, principalmente públicas. Porque a cultura da escola é informada, ou emoldurada, através de determinismos específicos embasados em ideologias e estruturas de uma sociedade maior, são padrões encarnados ao longo de séculos em símbolos que estão ligados, de acordo com Geertz (1957), ao ethos da cultura dominante.

Portanto, o que se pretende, nesta breve alusão às questões simbólicas em sala-de-aula, é propor uma retomada de foco para esta visão dramática das relações intra-escolares e, saber  que o estado e processo de semitransição nesses ritos simbólicos são passíveis de inferências particulares e gerais que podem redirecionar esses fenômenos na bilateralidade: professor x aluno.

 

Bibliografia

FREIRE, Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GEERTZ, Cliford. Ethos, World-view and analysis of sacred symbols. Antioc Rewiew, vol.17, nº p. 421, 1957.

IBRI, Ivo Assad. Kósmos Noethos: A Arquitetura Filosófica de Charles Sanders Peirce.   São Paulo: Perspectiva, 1992 – (Coleção Estudos; v.130).

MCLAREM, Peter. Rituais na Escola: Em direção a uma economia política de símbolos e gestos na educação. RJ: Vozes, 1992.

SANTAELLA, Lúcia. Teoria geral dos Signos: Como as Linguagens Significam as Coisas.  São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2004.

TURNER, Victor. The Ritual Process: Structure and Anti-Estruture. Chicago: Aldine, 1979.

 

 



* Professora da Rede Pública de Ensino do Estado de São Paulo, ex-aluna do Curso de Pedagogia da Faculdade Metropolitana de Caieiras e Mestranda em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP.