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NEM SEMPRE A CULPA É DE TODA A SOCIEDADE
O Estado de
São Paulo, domingo, 28 de outubro de 2007.
Economista diz que responsabilizar pobres pela própria situação é uma
agenda de “direita”, mas necessária
Mas são escolhas?
A responsabilização dos pobres pela situação em que vivem é uma agenda
"da direita", reconheço. Aliás, é o cerne do pensamento de direita
nos EUA. Mas lá eles enxergam o país como uma terra de oportunidades - quem
"escolheu" não aproveitar isso paga um preço. Essa visão não se
aplica ao Brasil. Mas acho que não devemos, por isso, evitar o tema. Acho que
as políticas públicas deveriam atuar sobretudo nos
casos em que a escolha é menor, ou seja, no caso dos filhos indesejados.
Escolhas não dependem de informação e condições de vida?
Se a decisão foi informada, é uma decisão. Mas a pesquisa que fiz não tem
condições de saber. O que a teoria econômica sabe é que há razões que
explicam por que pobres têm mais filhos do que ricos. Se você tem mais
educação, seu trabalho vale mais no mercado. E os filhos que você tiver e
quiser educar custarão mais. A educação é uma questão central. O Brasil não
conseguia dar escolas para todos. Agora consegue. O problema está na
qualidade da escola, sobretudo da pública.
Com recursos do PAC, o governo do Rio quer urbanizar Rocinha, Alemão e Manguinhos. Nelas há 25 mil crianças de até 6 anos e a maioria não tem acesso a creches nem a
pré-escola. Isso não limita demais as escolhas dos pais destas crianças?
É uma tremenda forma de estreitar escolhas. Pesquisas feitas nos EUA mostram
que crianças que freqüentam a pré-escola têm um repertório vocabular três
vezes maior. Dizer que os pobres tomam decisões erradas, por isso têm muitos
filhos que depois podem ser pessoas violentas, é leitura fascista. Agora,
dizer que tudo é culpa da sociedade também é errado. Um jovem que sai por aí
fazendo filhos em mulheres que abandona tem, sim, responsabilidade pela
situação que ajuda a criar. O ruim dessa visão de que ?tudo
é culpa de toda a sociedade? é que se passa a
aceitar uma certa romantização do banditismo.
Que romantização?
Marcinho VP, retratado no livro Abusado, matou um monte, teve filhos com
várias mulheres. Não consigo achar que ele é exemplo de nada só por ser mais
inteligente que a média, por se interessar por livros. Sei que essa posição é
meio de direita, mas acho que pessoas como ele têm margem para fazer escolhas
e fazem as escolhas erradas.
Será possível com o mesmo grau de evidência dizer quem daqui a 20 anos
cometerá crimes do colarinho-branco?
Crime do colarinho-branco tem motivação econômica óbvia. Isso é fácil de
compreender, é crime racional. Mas no Brasil é difícil punir, por razões que
decorrem do sistema jurídico.
Que razões?
Nosso sistema não aceita prova circunstancial. Nos EUA há gente condenada a
longas penas com base em provas circunstanciais. Isso faz com que a
probabilidade de um inocente ser condenado no Brasil seja zero. Mas há uma
fatalidade estatística: se a probabilidade de o inocente
ser condenado é zero, a do culpado também é zero. Nos EUA há um monte
de inocentes presos e a sociedade não vê problema. Acha que é o preço a pagar
para que se punam culpados. Confesso que, se tivesse que escolher um sistema,
escolheria o nosso.
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