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RADICALIZAÇÃO PERIFÉRICA
O Estado de
São Paulo, “Opinião”, sábado, 27 de outubro de 2007
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Marco Aurélio Nogueira*
Logo no início de Tropa de Elite - o interessantíssimo e polêmico filme de José Padilha - se fica
sabendo que polícia, crime e tráfico fazem parte de um mesmo sistema:
entrelaçam-se como fios de novelos gêmeos, corrompem-se e se degradam
mutuamente. Quase de imediato se percebe também que o entrelaçamento é mais
profundo. Nos morros e na cidade, os desejos de consumo, os estilos, a
linguagem e os comportamentos sugerem uma ausência de distância social, ainda
que seja escandalosamente ostensiva a disparidade de renda,
educação e oportunidades entre aqueles mundos unidos pela diluição
ética e pelo ofuscamento do futuro.
Os morros retratados no filme são ambientes abandonados, assistidos por uma
ONG bem-intencionada, mas não pelo poder público. Jovens burgueses e de
classe média compartilham espaços e drogas com jovens pobres, marginais e
crianças, misturando de modo louco universos que, na base da sociedade, são
incomunicáveis e se rejeitam com veemência. Parece não haver classes naquela
"comunidade" unida pelo desejo de sobreviver, de consumir, de
"fazer algo" e acontecer, sempre que possível contra o Estado (a
polícia). Mas a exclusão, a miséria, a falta de perspectivas explodem por
toda parte, a evidenciar um dilaceramento social extensivo. A violência
generalizada é seu fermento, a dificuldade comunicacional, seu combustível.
Não é somente a truculenta e fascista elite da tropa que se revela
desqualificada para propor uma saída: todos - traficantes, universitários,
políticos - chafurdam na mesma impossibilidade de
ação positiva, dramaticamente abraçados.
Pode-se até dizer que o filme exagera na
apresentação da violência, que nos morros também há gente decente dedicada a
alcançar patamares consistentes de dignidade e sobrevivência. Que a polícia
não é só aquilo que se vê, uma corporação corroída pela corrupção, pelo
despreparo e pela luta interna. Como toda obra de arte, Tropa de Elite dá
margem a muitas interpretações. Pode ter fascinado alguns brucutus de plantão
e seduzido aquela parcela da população que acredita na lei do cão, mas não
deixa ninguém indiferente. Ao desnudar uma situação
lancinante, explosiva, faz um irrecusável convite à reflexão.
Incentiva-nos a pensar no Brasil atual, onde o moderno está ao mesmo tempo
radicalizado (repleto de tecnologia, individualizado e desinstitucionalizado)
e aprisionado pela condição periférica do País, que nos mantém com boa parte do
corpo submerso na pobreza, na ignorância e no atraso econômico-social.
O entrelaçamento destas duas "lógicas", a da modernidade
radicalizada e a da condição periférica, a do celular e a da miséria, dá
cores ao Brasil atual. Voracidade produtiva e consumista, desejo contínuo de
exposição, diversão e velocidade, conectividade fácil, desengajamento, fuga
do Estado e da política são fenômenos derivados do moderno que se radicaliza.
Vida que escoa pelos dedos, sem direção e sem formato estável: "líquida",
na sugestiva linguagem metafórica de Zigmunt Bauman. A condição periférica,
por sua vez, nos encharca de pobreza, de violência, de luta insana pela
existência, de indigência e não-reconhecimento, de massas subalternizadas,
vistas como ameaça e problema, não como fato humano ou gente. A
interpenetração das duas condições produz um tipo de vida: dinâmica,
frenética, desigual, efêmera, inevitavelmente insegura e perigosa. Se a
inovação tecnológica infrene apaga as distâncias de tempo/espaço, ao mesmo
tempo polariza a convivência, separando as pessoas, por exemplo, em incluídos
e excluídos digitais ou informacionais. Ao passo que, para uns, drogas e
celulares são meios de vida, para outros, são fontes de prazer
e
entretenimento.
Encontramos traços deste modo de ser por onde quer que caminhemos. Ou será
que as dificuldades e incertezas da escola e da educação têm que ver somente
com fracasso pedagógico ou despreparo dos professores? A
longa e interminável crise do Congresso Nacional seria, por acaso, o
resultado exclusivo da mediocridade da classe política? E o que dizer da
condição falimentar dos partidos? Podemo-nos contentar em atribuir as
seguidas tragédias (aéreas, rodoviárias, urbanas, hospitalares) de nossos
dias
somente aos "sistemas" e a seus operadores?
A modernidade radicalizada periférica está
pulsando em nossos nichos sistêmicos e existenciais. A vida líquida, por
aqui, é ainda mais informe. Não necessitaríamos de filmes como Tropa de Elite
para saber disso. Bastaria olhar para os ambientes em que julgamos estar
nossas maiores virtudes: nossas instituições, da família aos sindicatos,
passando pelas escolas e pelos tribunais, pelo mercado e pelo Estado. Tudo
parece meio desfocado e fora de controle: em transição acelerada,
recomposição e "sofrimento". Há coisas novas despontando, coisas
velhas ruindo com estardalhaço, outras fenecendo em silêncio. O tom dominante
é de dúvida, medo, incerteza e insegurança, mas não há como desprezar a
potência positiva daquilo que emerge, nem achar que todos os cidadãos se
deixaram contaminar por igual e não se orientam mais por nenhum valor cívico
(honestidade, decência, integridade) ou aposta política.
A questão, como sempre, está na contradição e na ambivalência. Aquilo que se
mostra mais "emancipador" - a liberdade de escolha, a mobilidade, a
democratização dos relacionamentos - também traz consigo novas injustiças e a
reiteração de problemas já conhecidos: vantagens e oportunidades
desigualmente distribuídas, hierarquias e
assimetrias
de novo tipo, exclusões inaceitáveis.
A época é estranha, turbulenta, difícil de ser decodificada.
Ela está a nos dizer que problemas e conflitos não podem ser resolvidos por
medidas unilaterais ou discursos fáceis. Dependemos sempre mais de pensamento
crítico articulado e de políticas inteligentes, contínuas, democráticas, que
valorizem as pessoas e produzam
resultados
sustentáveis.
*Marco Aurélio Nogueira, professor de Teoria
Política da Unesp, é autor, entre outros, dos livros “Em Defesa da Política”
(Senac, 2001) e “Um Estado para a Sociedade Civil” (Cortez, 2004)
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