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O QUE ESTÃO ENSINANDO ÀS NOSSAS
CRIANÇAS? Revista Época – ed. nº 492, 20 de
outubro de 2007. Boa
parte dos livros didáticos apresenta distorções ideológicas. Por que elas
existem e como comprometem a educação Alexandre
Mansur, Luciana Vicária e Renata Leal A catarinense Mayra Ceron Pereira, que mora na
cidade de Lages, se sentiu incomodada com a lição de casa do filho, no início
do ano. Aluno da 7a série do colégio Bom Jesus, uma rede privada do sul do
país, Gabriel, de 13 anos, tinha de definir o que é a mais-valia. Ela folheou
o livro Terra e Propriedade,
da coleção História
Temática, que ele usa na escola, e encontrou uma foto de
José Rainha, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
“Ele aparecia apenas como líder social”, diz Mayra.
“Não havia a informação de que foi condenado pela Justiça.” Em uma leitura
mais atenta, ela se incomodou ainda mais com o que identificou como
maniqueísmo nos textos. “Os poderosos são sempre os vilões, e os proletários
os coitados. Não acho saudável crescer dividindo o mundo entre vítimas e
culpados”, afirma Mayra, que é vereadora do partido Democratas (ex-PFL). “Eu
não quero um livro neoliberal. Quero que deixem meu filho desenvolver seu
julgamento no futuro. Nesse livro, as pessoas já vêm julgadas e condenadas.” Na central do
colégio, em Curitiba, a informação é que o livro está sendo reavaliado como
qualquer outro. “Estamos com essa coleção há oito anos e ela é uma das mais
conceituadas na área. Pode ter problemas, mas nenhum livro é 100%”, afirma o
educador Pedro Gardim, coordenador pedagógico do colégio.
Segundo ele, a informação sobre José Rainha não estava no livro porque a
edição usada era anterior à condenação. “O livro fala do MST, que é um
movimento polêmico, mas importante para discutir o tema da terra. Assim como,
mesmo sendo uma escola católica, falamos da Inquisição.” Segundo Roberto Catelli, um dos autores do livro, a obra não faz nenhuma
apologia a José Rainha. Para Catelli, mestre O caso suscita
uma discussão relevante para as famílias de 42 milhões de estudantes do
ensino fundamental e médio no Brasil, nas redes pública e privada. Afinal, o
que se ensina às crianças e aos adolescentes do país? Há um mês, um artigo do
jornalista Ali Kamel despertou a polêmica, ao
transcrever trechos do livro Nova
História Crítica no jornal O
Globo. Para Kamel, o livro é uma
“tentativa de fazer nossas crianças acreditarem que o capitalismo é mau e que
a solução de todos os problemas é o socialismo”. ÉPOCA analisou o livro e
encontrou trechos problemáticos, como “Adam Smith acreditava que as forças do
mercado agiriam como uma mão invisível a regular a economia. Em suma, o
vale-tudo capitalista promoveria o progresso geral de forma harmoniosa”, uma
visão estereotipada do capitalismo, como um sistema desprovido de ética. Nova História Crítica foi um campeão de
vendas. Teve 9 milhões de exemplares distribuídos desde 1998 pela rede pública
de ensino e 1 milhão pela rede particular. Estima-se que 30 milhões de
adolescentes estudaram História com ele. O autor, Mario Furley
Schmidt, não se pronunciou. Arnaldo Saraiva, presidente da editora Nova
Geração, respondeu que o livro “não é o único nem o primeiro que questiona a
permanência de estruturas injustas e que enfoca os conflitos sociais em nossa
história”. Disse também: “Não publicamos livros para fazer crer nisso ou
naquilo, mas para despertar nos estudantes a capacidade crítica de ver além
das aparências e de levar em conta múltiplos aspectos da realidade”. O livro
de Schmidt já não faz parte da lista de recomendações do MEC. Fora aprovado,
com ressalvas, pelas bancas que analisam os livros didáticos, em 1998, 2001 e
2004. Em 2007, quando a categoria “com ressalvas” acabou,
ele foi rejeitado. Mas há outros,
com teor parecido. ÉPOCA fez um levantamento de 20 livros didáticos e 28
apostilas de História e Geografia adotados por escolas
públicas e privadas. Em um país democrático, pode-se esperar que os
títulos reflitam o amplo espectro ideológico e político da sociedade. Não é o
que ocorre. A maioria dos livros – em especial os de História – é simpática
ao socialismo e apresenta o livre mercado como um modelo econômico gerador de
desigualdade e pobreza. Embora a ênfase seja desequilibrada para a ideologia
de esquerda, isso faz parte do jogo democrático. O dado que assusta é a
quantidade de distorções que os autores fazem em nome da visão socialista.
Existem dois tipos de problemas. O primeiro é a omissão. Ao tratar de
revoluções socialistas, como a da China e a de Cuba, vários livros deixam de
mencionar o caráter opressivo e ditatorial desses regimes. Além disso, a
ideologia leva alguns autores a publicar informações erradas, como dizer que
a globalização aumentou a pobreza mundial. Segundo dados da ONU, a abertura
do comércio internacional da década de 90 fez com que a renda per capita dos países pobres crescesse mais que a dos países
desenvolvidos (confira nos quadros). O caso mais
impressionante é o do material elaborado pelos professores da rede estadual
do Paraná no programa Livro Didático Público. Seus livros vão para 450 mil
alunos do ensino médio. Há até um livro de Educação Física com um capítulo
intitulado “Faço esporte ou sou usado pelo
esporte?”, em que a atividade física é apresentada como
ferramenta de exploração capitalista. “Regras: é preciso
respeitá-las para sermos bons esportistas. Em nossa sociedade, devemos
ser submissos às regras impostas pela classe dominante”, escreve o autor. “Em
nosso convívio social, devemos respeitar nossos colegas (...), contribuindo
com o êxito da equipe ‘de trabalho’, isso quer dizer ‘enriquecer cada vez
mais os patrões’.” O governo paranaense diz que não houve orientação
ideológica para os autores. “Algumas perspectivas podem ser vistas como
reducionistas, mas todas as realidades existem”, diz o filósofo Jairo Marçal,
coordenador do programa. “Seria complicado assumir o relativismo que acaba
aceitando todas as posições como corretas. Não se pode mais fazer uma crítica
ao modelo econômico que está colocado?” Quem escreve
livros como esses? Escritores revolucionários? Nem tanto. O autor dos
capítulos de Educação Física do Paraná é Gilson José Caetano, de 30 anos,
casado com uma professora de Educação Física e pai de uma menina de 2 anos.
Ele é professor no município de Turvo, com 14 mil habitantes. Sua formação é
o curso de Educação Física de uma universidade particular de Palmas, no
interior do Paraná. Caetano é diretor da Escola Joanna s Lechiw
Thomé, com 96 alunos entre a 5a e 8a séries. Para chegar lá, todas as
manhãs percorre Para escrever
seu livro de esporte com críticas ao capitalismo, Caetano diz ter escolhido
“um recorte baseado no materialismo histórico dialético”, referindo-se à
concepção de História desenvolvida por seguidores de Karl Marx. Ele afirma
que o marxismo seria a base teórica de consenso entre os professores que
criaram as diretrizes da Secretaria de Educação do Paraná. “Todo livro
didático público tem uma visão. Se partirmos da neutralidade, não pensamos um
aluno crítico”, diz. “Isso não significa que eu seja comunista. Nem me
interesso muito por política.” Caetano se diz um atleta frustrado. “Praticava
todos os esportes, mas nunca descobria minha habilidade. Meu professor de
Educação Física se preocupava tanto em ajudar os alunos que resolvi ser como
ele. Quero fazer algo pela comunidade por meio da formação dos estudantes.” Em uma apostila
do sistema Anglo, os autores Claudio Vicentino e
José Carlos Moura, de São Paulo, escrevem: “o império da sociedade de consumo
é um mundo em que alguns são senhores do mercado e a esmagadora maioria sua
vítima”. Por e-mail, eles explicaram seu texto. “Consideramos que esses
problemas transcendem uma visão ideológica, seja ela de direita ou de
esquerda, e inclusive por isso assinalamos na mesma página, logo a seguir,
que nem o socialismo real e nem o capitalismo foram capazes de resolver esses
grandes impasses da humanidade.” Já a professora Katya Picanço escreveu um
capítulo intitulado “Ideologia” em uma apostila de Sociologia distribuída na
rede pública do Paraná. Em sua obra, a autora afirma que “na sociedade
capitalista, o poder público está a serviço da classe dominante, via seus
representantes no governo”. Na opinião de Katya, “é
óbvio que os políticos estão a serviço da classe dominante, senão a sociedade
teria mudado”. Roberto Catelli, no livro Terra e Propriedade, descreve a
revolução chinesa de Mao Tsé-tung,
mas não menciona que seu regime opressor promoveu um dos maiores massacres da
História. Catelli afirma que optou por um recorte
econômico, não político. Sua resposta é a mesma em relação à ditadura de
Fidel Castro: “Só mencionamos o bloqueio econômico dos
Estados Unidos a Cuba, uma questão política, porque ele teve impacto
direto na economia do país”. Alguns autores,
diante das críticas, afirmam que os livros didáticos com problemas serão
revisados. É o caso de Uma História em
Construção, que tem a ilustração de um americano esmagando o
Brasil. O autor, José Rivair Macedo, diz que vai
reformular o conteúdo e a parte gráfica. “Estamos revendo uma série de
aspectos conceituais e formais, de modo a tornar a obra mais objetiva e em
consonância com as atuais propostas de ensino”, afirma. Procuradas por ÉPOCA,
as editoras Saraiva, Scipione e Moderna não
quiseram se manifestar. A doutrina
política de esquerda não é o único problema do mercado didático. O livro Banzo, Tronco & Senzala, da editora Harbra, foi recolhido da rede de Brasília em 2003 porque
sua ilustração de capa trazia escravos negros com traços faciais semelhantes
aos de macacos. No início de 2003, o caso foi denunciado por um pai de aluno
ao senador Paulo Paim (PT-RS) – que procurou o
governo do Distrito Federal. Embora não fosse distribuído pelo governo,
muitas escolas compravam o livro com orçamento próprio. “O caso é chocante
porque é extremo. Mas não é difícil achar ilustrações que embrutecem a face dos
negros nos livros didáticos”, afirma a educadora Andréia Lisboa de Sousa,
doutoranda em currículos escolares na Universidade do Texas. Em outra coleção
excluída depois de ser distribuída por três anos pelo MEC,
os índios são retratados como seres incivilizados, e os nordestinos
como culpados pela pobreza nas grandes cidades. No volume para a 6a série de Uma História em Construção, lê-se:
“Comparando o tipo de vida dos indígenas com o dos civilizados, notamos
grandes diferenças” (o termo civilizados, segundo
consenso dos antropólogos, é preconceituoso, pois implica que os índios não
têm civilização. Seriam, portanto, selvagens). No livro para a 7a série, o
autor escreve: “A fome não diminuiu no Nordeste, mas foi trazida para o
Sudeste e para o Sul. Quem trouxe? Os 28 milhões de migrantes que marcharam
para as regiões desenvolvidas”.
“Livros que
induzem a preconceitos e estereótipos levam a uma formação errada, uma visão
distorcida do mundo. Formam pessoas racistas, com xenofobia. As idéias de que
no Nordeste só há seca e miséria e que todos os alemães são nazistas não
ajudam o aluno a compreender o mundo”, afirma a historiadora Margarida Matos,
da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Ela coordenou a banca que
excluiu o livro Nova História Crítica da
lista do MEC neste ano. A visão doutrinária foi apenas um dos problemas
identificados. Schmidt, o autor, faz ainda abordagens estereotipadas de
períodos e personagens históricos e abusa de expressões coloquiais. No livro
para a 5a série, ele especula sobre as razões da expansão do cristianismo:
“Muitas pessoas ricas começaram a adotar o cristianismo. Estavam cansadas de
sua vida vazia, de egoísmos e de futilidades. As orgias alegravam por um
tempo, mas depois vinha a depressão”. Os escritores de
livros didáticos são os maiores vendedores de livros do Brasil. Segundo levantamento
da Câmara Brasileira do Livro e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros,
53% dos 310 milhões de exemplares vendidos no ano passado no país se
encaixavam nessa categoria. O segmento representa mais da metade do
faturamento do mercado editoral brasileiro. Autores
que estão há décadas no mercado já venderam milhões
de exemplares e formaram gerações. Até autores novos no ramo podem alcançar
esse volume em apenas uma única venda para o programa do governo federal de
distribuição de livros para escolas da rede pública. São números expressivos
para um mercado em que fenômenos como Harry Potter saem com tiragem inicial
de 350 mil exemplares. Potter precisou de cinco
volumes para bater a casa dos 2 milhões de livros vendidos. O grande impulso
para o mercado de livros didáticos vem do governo federal. O Ministério da
Educação (MEC) destinou R$ 746 milhões à compra de livros didáticos para o
próximo ano letivo nas redes federal, estadual e municipal. O programa
brasileiro é o terceiro maior do mundo – só fica atrás dos programas da China
e dos Estados Unidos, segundo estudo do economista Fábio Sá Earp, coordenador do Laboratório de Economia do Livro da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para as editoras, é um mercado
de mais de 37,6 milhões de alunos da rede pública. Boa parte dos livros com
viés ideológico de esquerda passa pela análise do governo federal. Em cada
disciplina, os livros são analisados por uma banca de especialistas de uma
universidade pública. Dos 587 inscritos no ano passado, 182 foram excluídos.
As escolas privadas não são obrigadas a seguir a lista dos livros aprovados
pelo MEC. Mas geralmente a usam como referência. |
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