EDGAR MORIN E A EDUCAÇÃO: VISÕES DO FUTURO
Francisco Valente*
Morin, Edgar - Os
sete Saberes Necessários à Educação do Futuro 3a. ed. - São Paulo - Cortez;
Brasília, DF: UNESCO, 2001. |
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Em Os sete saberes
indispensáveis enunciados por Morin, objeto do presente livro: - as cegueiras do conhecimento: o erro e
a ilusão; - os princípios do conhecimento
pertinente; - ensinar a condição humana; - ensinar a identidade terrena; - enfrentar as incertezas; - ensinar a compreensão; - a ética do gênero humano, são eixos e,
ao mesmo tempo, caminhos que se abrem a todos os que pensam e fazem educação
e que estão preocupados com o futuro das crianças e adolescentes. O texto de Edgar
Morin tem o mérito de introduzir uma nova e criativa reflexão no contexto das
discussões que estão sendo feitas sobre a educação para o Século XXI. Aborda temas
fundamentais para a educação contemporânea, por vezes ignorados ou deixados à
margem dos debates sobre a política educacional. Sua leitura
levará à revisão das práticas pedagógicas da atualidade, tendo em vista a
necessidade de situar a importância da educação na totalidade dos desafios e
incertezas dos tempos atuais. Seus capítulos -
ou eixos - expõem a genialidade, clareza e simplicidade do filósofo Morin,
num texto dedicado aos educadores, em particular, mas acessível a todos que
se interessam pelos caminhos a trilhar em busca de um futuro mais humano,
solidário e marcado pela construção do conhecimento. I - As cegueiras do conhecimento: o erro
e a ilusão É impressionante
que a educação que visa a transmitir conhecimentos seja cega ao que é
conhecimento humano, seus dispositivos, enfermidades, dificuldades,
tendências ao erro e à ilusão e não se preocupe em fazer conhecer o que é
conhecer. De fato, o
conhecimento não pode ser considerado uma ferramenta "ready made",
que pode ser utilizada sem que sua natureza seja examinada. Da mesma forma, o
conhecimento do conhecimento deve aparecer como necessidade primeira, que
serviria de preparação para enfrentar os riscos permanentes de erro e de
ilusão, que não cessam de parasitar a mente humana. Trata-se de armar cada
mente no combate vital rumo à lucidez. É necessário
introduzir e desenvolver na educação estudo das características cerebrais,
mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e
modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que o conduzem
ao erro ou à ilusão.
A educação deve
mostrar que não há conhecimento que não esteja, em algum grau, ameaçado pelo
erro e pela ilusão. O conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo
externo. Todas as percepções são, ao mesmo tempo, traduções e reconstruções
cerebrais com base em estímulos ou sinais captados pelos sentidos. Resultam,
daí, os inúmeros erros de percepção que nos vêm de nosso sentido mais
confiável, a visão. Ao erro da percepção acrescenta-se o erro
intelectual O conhecimento,
como palavra, idéia, de teoria, é fruto de uma tradução/construção por meio
da linguagem e do pensamento e, por conseguinte, está sujeito ao erro. O
conhecimento comporta a interpretação, o que introduz o risco de erro na
subjetividade do conhecedor, de sua visão de mundo e de seus princípios de
conhecimento. Daí os numerosos
erros de concepção e de idéias que sobrevêm a despeito de nossos controles
racionais. A projeção de nossos desejos ou de nossos medos e pás perturbações
mentais trazidas por nossas emoções multiplicam os riscos de erro. O desenvolvimento
do conhecimento científico é poderoso meio de detecção de erros e de luta
contra as ilusões. Entretanto, os paradigmas que controlam a ciência podem
desenvolver ilusões, e nenhuma teoria científica está imune para sempre
contra o erro. Além disso, o conhecimento científico não pode tratar sozinho
dos problemas epistemológicos, filosóficos e éticos. A educação deve se dedicar, por
conseguinte, à identificação da origem de erros, ilusões e cegueiras. Os erros podem
ser mentais - pois nenhum dispositivo cerebral permite distinguir a
alucinação da percepção, o sonho da vigília, o imaginário do real, o
subjetivo do objetivo. A própria memória é fonte de erros inúmeros. Nossa
mente tende, inconscientemente, a selecionar as lembranças convenientes e
eliminar as desagradáveis. Há também falsas lembranças, fruto de pura ilusão. Os erros podem
ser intelectuais - pois os sistemas de idéias (teorias, doutrinas,
ideologias) não apenas estão sujeitas ao erro, como protegem os erros
possivelmente contidos em seu contexto. Os erros da
razão: a racionalidade é a melhor proteção contra o erro e a ilusão. Mas traz
em seu seio uma possibilidade de erro e de ilusão quando se perverte, se
transforma É necessário
reconhecer, na educação do futuro, um princípio de incerteza racional:
pois a racionalidade corre risco constante, caso não mantenha vigilante
autocrítica quanto a cair na ilusão racionalizadora. E a verdadeira
racionalidade deve ser não apenas teórica e crítica, mas também autocrítica. Os erros
paradigmáticos - os modelos explicativos - os paradigmas - também são
sujeitos a erros - de concepção e de interpretação de conceitos. O paradigma
cartesiano, por exemplo - mola mestra do desenvolvimento científico e
cultural do Ocidente - se fundamenta em contrastes binários: sujeito/objeto,
alma/corpo, espírito/matéria, qualidade/quantidade, sentimento/razão,
existência/essência, certo/errado, bonito/feio, etc. - não encontram, no
mundo de hoje, a fundamentação que parecia possuir no início do século XX. O
paradigma - como o cartesiano - mostra alguma coisa e esconde outras -
podendo, portanto, elucidar e cegar, revelar e ocultar. É no seu seio que se
esconde o problema -chave do jogo da verdade e do erro. O "imprinting" e a normalização "Imprinting"
é o termo proposto por Konrad Lorenz para dar conta da marca indelével
imposta pelas primeiras experiências do animal recém nascido. O
'imprinting" cultural marca os humanos desde o nascimento, primeiro com
o elo da cultura familiar; depois da cultura da escola, prosseguindo pela
universidade e na vida profissional. A normalização -
forma de estandartização das consciências - é um processo social
(conformismo) que elimina o poder da pessoa humana de contestar o
"imprinting". A noologia:
possessão O autor cita
Marx, ao dizer "os produtos do cérebro humano têm o aspecto de seres
independentes, dotados de corpos particulares em comunicação com os humanos e
entre si". Edgar Morin está se referindo às crenças e idéias - muitas
vezes reificadas, corporificadas, a ponto de afirmar que "as crenças e
idéias não são somente produtos da mente, mas também seres mentais que têm
vida e poder; e assim, podem possuir-nos". O homem, na visão do autor, é
prisioneiro, por vezes, de suas crenças e idéias, nos dias de hoje, assim
como o foi, anteriormente, prisioneiro dos mitos e superstições. O inesperado O inesperado, no
dizer de Morin, "surpreende-nos"; nós nos acostumamos de maneira
segura com nossas teorias, crenças e idéias, sem deixar lugar para o acolher
o "novo". Entretanto, o 'novo" brota sem parar... Quando o
inesperado se manifesta, é preciso ser capaz de rever nossas teorias e
idéias, em vez de deixar o fato novo entrar à força num ambiente (ou
instância, ou teoria) incapaz de recebê-lo.
É preciso
destacar, em qualquer educação, as grandes interrogações sobre nossas
possibilidades de conhecer. Pôr em prática as interrogações constitui o
oxigênio de qualquer proposta de conhecimento. E o conhecimento permanece como
uma aventura para a qual a educação deve fornecer o apoio indispensável. II - Os princípios do conhecimento
pertinente Existe um
problema capital, sempre ignorado, que é o da necessidade de promover o
conhecimento capaz de aprender problemas globais e fundamentais para neles
inserir os conhecimentos parciais e locais. A supremacia do
conhecimento fragmentado de acordo com as disciplinas impede freqüentemente
de operar o vínculo entre as partes e a totalidade, e deve ser substituída
por um modo de conhecimento capaz de apreender os objetos em seu contexto,
sua complexidade, seu conjunto. É necessário
desenvolver a aptidão natural do espírito humano para situar todas essas
informações em um contexto e um conjunto. É preciso ensinar os métodos que
permitam estabelecer as relações mútuas e as influências recíprocas entre as
partes e o todo em um mundo complexo. Da pertinência no conhecimento A pertinência do
mundo enquanto mundo é uma necessidade, ao mesmo tempo, intelectual e vital. É o problema
universal de todo cidadão do novo milênio: como ter acesso às informações e
organizá-las? Como perceber e conceber o Contexto, o Global (relação
todo/partes) o Multidimensional, o Complexo? Para articular e
organizar os conhecimentos e, assim, reconhecer e conhecer os problemas do
mundo, é necessária a reforma do pensamento. Entretanto, essa reforma não é
programática, mais sim, paradigmática - é questão fundamental da educação, já
que se refere à nossa aptidão para organizar o conhecimento. Esse é o grande
problema a ser enfrentado pela educação do futuro - tornar evidentes: - o contexto: o
conhecimento das informações ou dados isolados é insuficiente; é preciso
situar as informações e dados em seu contexto para que adquiram sentido; - O complexo: há
complexidade quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do
todo e há um tecido independente, interativo e inter-retroativo entre o
objeto de conhecimento e seu contexto, partes e todo, todo e partes, partes
em si; assim, complexidade é a união entre unidade e multiplicidade. A inteligência geral O desenvolvimento
de aptidões gerais da mente permite melhor desenvolvimento das competências
particulares ou especializadas. Quanto mais
poderosa é a inteligência geral, maior é sua faculdade para tratar de
problemas especiais. A compreensão de dados particulares também necessita da
ativação da inteligência geral, que opera e organiza a mobilização dos
conhecimentos de conjunto de cada caso particular. A educação deve
favorecer a aptidão natural da mente em formular e problemas essenciais e, de
forma correlata, estimular o uso total da inteligência geral. Este uso total
pede o livre exercício da curiosidade, a faculdade mais expandida e a mais
viva durante a infância e a adolescência, que com freqüência a instrução
extingue e que, ao contrário, se trata de estimular, caso esteja adormecida,
despertar. A educação do
futuro, em sua missão de promover a inteligência geral dos indivíduos, deve
ao mesmo tempo utilizar os conhecimentos existentes, superar as antinomias
decorrentes do progresso nos conhecimentos especializados e identificar a
falsa racionalidade. A antinomia
- para Morin, nos dias atuais, os sistemas de ensino portam antinomias -
contradições - criando e alimentando disjunções entre as ciências e as
humanidades, assim como a separação das ciências em disciplinas
hiperespecializadas, fechadas em si mesmas. Os problemas fundamentais da
humanidade e os problemas globais estão ausentes das ciências disciplinares;
o enfraquecimento da percepção global conduz ao enfraquecimento da
responsabilidade (cada um passa a responder somente por sua tarefa
especializada), assim como ao enfraquecimento da solidariedade (as pessoas
não sentem mais os vínculos com seus concidadãos). Os problemas essenciais Disjunção e
especialização fechada - hiper-especialização impede tanto a percepção do
global (que ela fragmenta em parcelas) quanto do essencial (que ela
dissolve). Redução e
disjunção - o princípio da redução (limitar o conhecimento do todo
ao conhecimento de suas partes) leva naturalmente a restringir o complexo ao
simples. Aplica às complexidades vivas e humanas a lógica mecânica e
determinista da máquina artificial. Como nossa educação sempre nos ensinou a
separar, compartimentar, isolar, e não unir os conhecimentos, o conjunto
deles constitui um quebra-cabeças ininteligível. A inteligência
compartimentada, parcelada, mecanicista, reducionista, enfim - disjuntiva -
rompe o complexo do mundo em fragmentos disjuntos, fraciona os problemas,
separa o que está unido, torna unidimensional o multidimensional. É uma
inteligência míope que acaba por ser normalmente cega. Reduz as
possibilidades de julgamento corretivo ou da visão a longo prazo. Assim,
quanto mais a crise progride, mais progride a incapacidade de pensar a crise;
quanto mais os problemas se tornam multidimensionais, maior a incapacidade de
pensar sua multidimensionalidade; quanto mais os problemas se tornam planetários,
mais eles se tornam impensáveis. A falsa
racionalidade - ou seja, a racionalização abstrata, triunfa hoje em
dia, por toda a parte, na forma do pensamento tecnocrático - incapaz de
compreender o vivo e o humano aos quais se aplica, acreditando-se ser o único
racional. O século XX viveu sob o domínio da pseudo-racionalidade que
presumia ser a única racionalidade, mas atrofiou a compreensão, a reflexão e
a visa em longo prazo. Sua insuficiência para lidar com os problemas mais
graves constituiu um dos mais graves problemas para a humanidade. Daí, o
paradoxo: o século XX produziu avanços gigantescos em todas as áreas do
conhecimento científico, assim como no campo da técnica. Ao mesmo tempo,
produziu nova cegueira para os problemas globais, fundamentais e complexos,
gerando inúmeros erros e ilusões. III - Ensinar a condição humana O ser humano é a
um só tempo, físico, biológico, psíquico, cultural, social, histórico. Esta
unidade complexa na natureza humana é totalmente desintegrada na educação por
meio das disciplinas, tendo-se tornado impossível aprender o que significa
ser humano. É preciso restaurá-la, de modo que cada um, onde quer que se
encontre, tome conhecimento e consciência, ao mesmo tempo, de sua identidade
complexa e de sua identidade comum a todos os outros humanos. Desse modo, a
condição humana deveria ser o objeto essencial de todo o ensino. É possível,
como base nas disciplinas atuais, reconhecer a unidade e a complexidade
humanas, reunindo e organizando conhecimentos dispersos nas ciências da
natureza, nas ciências humanas, na literatura e na filosofia, pondo em
evidência o elo indissolúvel entre a unidade e a diversidade de tudo que é
humano. Enraizamento/desenvolvimento do ser
humano A educação do
futuro deverá ser o ensino primeiro e universal, centrado na condição humana.
Conhecer o humano é, antes de mais nada, situá-lo no universo, e não
separa-lo dele. Todo o conhecimento deve contextualizar seu objeto para ser
pertinente; "quem somos?" é inseparável de "onde estamos",
"de onde viemos', para "para onde vamos?". Interrogar nossa
condição humana implica questionar nossa posição no mundo. Para a educação do
futuro, é necessário promover grande remembramento (consolidação) dos
conhecimentos oriundos das ciências naturais, a fim de situar a condição
humana no mundo, dos conhecimentos derivados das ciências humanas para
colocar em evidência a multidimensionalidade e a complexidade humanas. O humano do humano O homem é um ser
a um só tempo plenamente biológico e plenamente cultural, que traz em si a
unidualidade originária. É super e hipervivente: desenvolveu de modo
surpreendente as potencialidades da vida. Exprime de maneira hipertrofiada as
qualidades egocêntricas e altruístas do indivíduo, alcança paroxismos de vida
em êxtases e na embriagues, ferve de ardores orgiásticos e orgásmicos e é
nessa hipervitalidade que o "Homo Sapiens" é também "Homo
Demens". O homem e o
humano se encontram anelados a três circuitos fundamentais para sua vida
enquanto ser e enquanto pessoa: - o circuito
cérebro/mente/cultura; - o circuito
razão/afeto/pulsão; e - o circuito
indivíduo/sociedade/espécie. Todo
desenvolvimento verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto
das autonomias individuais, das participações comunitárias e do sentimento de
pertencer à espécie humana. "Unitas multiplex": unidade e
diversidade humana Há uma unidade
humana; e há uma diversidade humana. A unidade não está apenas nos traços
biológicos da espécie; a diversidade não está apenas nos traços psicológicos,
culturais e sociais. Existem outras unidade e diversidades perfilhando as
características do ser humano em "ser humano". Cabe à educação
do futuro cuidar para que a idéia de unidade da espécie humana não apague a
idéia de diversidade e que a diversidade não apague a unidade. A educação
deverá ilustrar este princípio de unidade/diversidade em todas as esferas do
conhecimento. IV - Ensinar a identidade terrena O destino
planetário do gênero humano é outra realidade até agora ignorada pela
educação. O conhecimento dos desenvolvimentos da era planetária, que tendem a
crescer no século XXI, e o reconhecimento da identidade terrena, que se
tornará cada vez mais indispensável a cada um e a todos, devem converter-se
em um dos principais objetos da educação. Convém ensinar a história
da era planetária, que se inicia com o estabelecimento da comunicação entre
todos os continentes no século XVI, e mostrar como todas as partes do mundo
se tornaram solidárias, sem, contudo, ocultar as opressões e a dominação que
devastaram a humanidade e que ainda não desapareceram. Será preciso indicar o
complexo de crise planetária que marca o século XX, mostrando que todos os
seres humanos, confrontados de agora em diante aos mesmos problemas de vida e
de morte, partilham um destino comum. A contribuição das contracorrentes O século XX
deixou como herança contracorrentes regeneradoras. Freqüentemente, na
história, contracorrentes suscitadas em reação às correntes dominantes podem
se desenvolver e mudar o curso dos acontecimentos. Devemos considerar, como
movimentos importantes e atuantes: - a
contracorrente ecológica que, com o crescimento das degradações e o
surgimento de catástrofes técnicas/industriais, só tende a aumentar; - a
contracorrente qualitativa que, em reação à invasão do quantitativo e da
uniformização generalizada, se apega à qualidade em todos os campos, a
começar pela qualidade de vida; - a
contracorrente da resistência à vida prosaica puramente utilitária, que se
manifesta pela busca da vida poética, dedicada ao amor, à admiração, à
paixão, à festa; - a
contracorrente de resistência à primazia do consumo padronizado, que se
manifesta de duas maneiras opostas: uma, pela busca da intensidade vivida
(consumismo); - a outra, pela
busca da frugalidade e temperança (minimalismo); - a contracorrente,
ainda tímida, de emancipação em relação à tirania onipresente do dinheiro,
que se busca contrabalançar por relações humanas e solidárias, fazendo
retroceder o reino do lucro; - a
contracorrente, também tímida, que, em reação ao desencadeamento da
violência, nutre éticas de pacificação das almas e das mentes. V - Enfrentar as incertezas As ciências
permitiram que adquiríssemos muitas certezas, mas igualmente revelaram, ao
longo do século XX, inúmeras zonas de incerteza. A educação deveria incluir o
ensino das incertezas que surgiram nas ciências físicas (microfísica,
termodinâmica, cosmologia), nas ciências da evolução biológica e nas ciências
históricas. Será preciso
ensinar princípios de estratégia que permitiriam enfrentar os imprevistos, o
inesperado e a incerteza, e modificar seu desenvolvimento em virtude das
informações adquiridas ao longo do tempo. É preciso aprender a navegar em um
oceano de incertezas em meio a arquipélagos de certeza. A fórmula do
poeta grego Eurípedes, que data de vinte e cinco séculos, nunca foi tão
atual: "O esperado não se cumpre, e ao inesperado um deus abre o
caminho". O abandono das concepções deterministas da história humana que
acreditavam poder predizer nosso futuro, o estudo dos grandes acontecimentos
e desastres de nosso século, todos inesperados, o caráter doravante
desconhecido da aventura humana devem-nos incitar a preparar as mentes para
esperar o inesperado, para enfrentá-lo. É necessário que todos os que se
ocupam da educação constituam a vanguarda ante a incerteza de nossos tempos. VI
- Ensinar a compreensão A compreensão é a
um só tempo meio e fim da comunicação humana. Entretanto, a educação para a
compreensão está ausente no ensino. O planeta necessita, em todos os
sentidos, de compreensão mútua. Considerando a importância da educação para a
compreensão, em todos os níveis educativos e em todas as idades, o
desenvolvimento da compreensão pede a reforma das mentalidades. Esta deve ser
a obra para a educação do futuro. A compreensão
mútua entre os seres humanos, quer próximos, quer estranhos, é daqui para a
frente vital para que as relações humanas saiam de seu estado bárbaro de
incompreensão. Daí decorre a necessidade de estudar a incompreensão a partir
de suas raízes, suas modalidades e seus efeitos. Este estudo é tanto mais
necessário porque enfocaria não os sintomas, mas as causas do racismo, da
xenofobia, do desprezo. Constituiria, ao mesmo tempo, uma das bases mais
seguras da educação para a paz, à qual estamos ligados por essência e
vocação. As duas compreensões Há duas formas de
compreensão: a compreensão intelectual ou objetiva e a compreensão humana
intersubjetiva. Compreender significa intelectualmente apreender em conjunto,
comprehendere, abraçar junto (o texto e o seu contexto, as partes e o
todo, o múltiplo e o uno). A compreensão intelectual passa pela
inteligibilidade e pela explicação. Explicar é considerar o que é preciso
conhecer como objeto e aplicar-lhe todos os meios objetivos de conhecimento.
A explicação é, bem entendido, necessária para a compreensão intelectual ou
objetiva. Mas a compreensão
humana vai além da explicação. A explicação é bastante para a compreensão
intelectual ou objetiva das coisas anônimas ou materiais. A compreensão
humana comporta um conhecimento de sujeito a sujeito. Por conseguinte, se
vemos uma criança chorando, nós a compreendemos, não pelo grau de salinidade
de suas lágrimas, mas por buscar em nós mesmos nossas aflições infantis,
identificando-a conosco e identificando com ela. Compreender inclui, necessariamente,
um processo de empatia, de identificação e de projeção. Sempre
intersubjetiva, a compreensão pede abertura, simpatia e generosidade. Educação para os obstáculos à compreensão Há múltiplos
obstáculos exteriores à compreensão intelectual: - o "ruído"
que interfere na transmissão da informação, criando o mal-entendido e ou
não-entendido; - a polissemia de
uma noção que, enunciada em um sentido, é entendida de outra forma; - há a ignorância
dos ritos e costumes do outro, especialmente os ritos de cortesia, o que pode
levar a se ofender inconscientemente ou desqualificar a si mesmo perante o
outro (diversidade cultural); - existe a
incompreensão dos valores imperativos propagados no seio de outra cultura -
respeito aos idosos, crenças religiosas, obediência incondicional das
crianças, ou, ao contrário, em nossa sociedade, o culto ao indivíduo e o
respeito às liberdades; - há a
incompreensão dos imperativos éticos próprios a uma cultura, o imperativo da
vingança nas sociedades tribais, o imperativo da lei nas sociedades
evoluídas; - existe a
impossibilidade, enquanto visão de mundo, de compreender as idéias e os
argumentos de outra visão de mundo, assim como uma ideologia/filosofia
compreender outra ideologia/filosofia; - existe, enfim, a impossibilidade de
compreensão de uma estrutura mental em relação a outra. A ética da compreensão É a arte de viver
que nos demanda, em primeiro lugar, compreender de modo desinteressado.
Demanda grande esforço, pois não pode esperar nenhuma reciprocidade: aquele
que é ameaçado de morte por um fanático compreende porque o fanático quer matá-lo,
sabendo que este jamais o compreenderá. A ética da compreensão pede que
compreenda a incompreensão.
"El
camino se hace al andar" (Antonio Machado) A educação deve
conduzir à "antropo-ética", levando em conta o caráter ternário da
condição humana, que é ser ao mesmo tempo indivíduo/sociedade/espécie. Nesse
sentido, a ética indivíduo/espécie necessita do controle mútuo da sociedade
pelo indivíduo e do indivíduo pela sociedade, ou seja, a democracia; a ética
indivíduo/espécie convoca, ao século XXI, a cidadania terrestre. A ética não
poderia ser ensinada por meio de lições de moral. Deve formar-se nas mentes
com base na consciência de que o humano é, ao mesmo tempo, indivíduo, parte
da sociedade, parte da espécie. Carregamos em nós esta tripla realidade.
Desse modo, todo desenvolvimento verdadeiramente humano deve compreender o
desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias
e da consciência de pertencer à espécie humana. Partindo disso,
esboçam-se duas grandes finalidades ético-políticas do novo milênio:
estabelecer uma relação de controle mútuo entre a sociedade e os indivíduos
pela democracia e conceber a Humanidade como comunidade planetária. A
educação deve contribuir não somente para a tomada de consciência de nossa
"Terra-Pátria", mas também permitir que esta consciência se traduza
em vontade de realizar a cidadania terrena. Não possuímos as chaves que abririam as portas de um futuro melhor.
Não conhecemos o caminho traçado. Podemos, porém, explicitar nossas
finalidades: a busca da hominização na humanização, pelo acesso à cidadania
terrena. |
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