
A IMPORTÂNCIA DA
PSICOMOTRICIDADE NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Andréia Beatriz da Silva*
Patrícia Ferreira Bianchini Borges**
Introdução
O
processo de aprendizagem é um processo complexo que envolve sistemas e
habilidades diversas, inclusive as motoras. Na maioria das crianças que
passam por dificuldades de aprendizagem, a causa do problema não está
localizado no período escolar em que se encontram no nível das bases, ou
seja, nas estruturas de desenvolvimento. Assim sendo, é imprescindível que a
criança, durante o período pré-escolar, antes de iniciar a sistematização do
processo de alfabetização, adquira determinados conceitos que irão permitir e
facilitar a aprendizagem da leitura e da escrita. Esses conceitos ou
habilidades básicas são condições mínimas necessárias para uma boa
aprendizagem, e constituem a estrutura da educação psicomotora.
O
desenvolvimento psicomotor requer o auxílio constante do professor através da
estimulação; portanto não é um trabalho exclusivo do professor de Educação
Física, e sim de todos profissionais envolvidos no processo
ensino-aprendizagem. Na Educação Infantil, a função primordial do professor
não é alfabetizar, devendo também estimular as funções psicomotoras
necessárias ao aprendizado formal.
Os
principais aspectos a serem destacados são: esquema corporal, lateralidade,
organização espacial e estruturação temporal. Além desses aspectos citados, é
importante trabalhar as percepções e atividades pré-escritas.
Um
esquema corporal mal
constituído resultará em uma criança que não coordena bem seus movimentos,
veste-se ou despe-se com lentidão, as habilidades manuais lhe são difíceis, a
caligrafia é feia, sua leitura é inexpressiva, não harmoniosa. (MORAIS, 2002)
Quando
a lateralidade de uma criança
não está bem estabelecida, a mesma demonstra problemas de ordem espacial, não
percebe a diferença entre seu lado dominante e o outro, não aprende a
utilizar corretamente os termos direita e esquerda, apresenta dificuldade em
seguir a direção gráfica da leitura e da escrita, não consegue reconhecer a
ordem em um quadro, entre outros transtornos. (MORAIS, 2002)
Problemas
na organização espacial
acarretarão dificuldades em distinguir letras que se diferem por pequenos
detalhes, como “b” com “p”, “n” com “u”, “12” com “21” (direita e esquerda, para cima e para
baixo, antes e depois), tromba constantemente nos objetos, não organiza bem
seus materiais de uso pessoal nem seu caderno; não respeita margens nem
escreve adequadamente sobre as linhas.
Uma
criança com a estruturação temporal
pouco desenvolvida pode não perceber intervalos de tempo, não percebe o antes
e o depois, não prevê o tempo que gastará para realizar uma atividade,
demorando muito tempo nela e deixando, portanto, de realizar outras.
Esses
são alguns aspectos que se podem observar em crianças que não desenvolveram
adequadamente suas habilidades psicomotoras. Verifica-se a necessidade de
estimulá-la adequadamente desde a mais tenra idade, tendo sempre claros, os
objetivos a serem alcançados e os objetivos das atividades propostas; o relacionamento
afetivo professor/aluno, o jogo prazeroso e a elevação da auto-estima são
também aspectos de extrema relevância.
Partindo da concepção que a
psicomotricidade na Educação Infantil é importante, devemos valorizá-la e
trabalhar com as crianças no sentido de efetivar o seu verdadeiro
significado.
De
acordo com Quirós (1992, apud ELMAN; BARTH; UNCHALO, 1992, p.12) “a
motricidade é a faculdade de realizar movimentos e a psicomotricidade é a
educação de movimentos que procura melhor utilização das capacidades
psíquicas”.
Dessa
forma, entende-se que a motricidade e a psicomotricidade são interligadas e
ambas desenvolvem os movimentos físicos e mentais, procurando educar o
próprio corpo, sendo a psicomotricidade uma ação em que se desenvolvem todas
as áreas do conhecimento.
Na busca de concepções que
fundamentem este trabalho, podemos destacar as seguintes colocações:
Compreendendo
a sua importância para o desenvolvimento, o movimento humano, portando é mais
do que simples deslocamento do corpo; no espaço. Constitui-se em uma
linguagem que permite as crianças agirem sobre o meio físico e atuarem sobre
o ambiente humano, mobilizando as pessoas por meio de seu teor expressivo.
(BRASIL, 1998, p. 5)
Assim
sendo, percebe-se que a psicomotricidade é uma ciência fundamental no
desenvolvimento da criança, em que a mesma deve ser estimulada sempre para
que se possa ter uma formação integral, uma vez que o movimento para a
criança significa muito mais que mexer com o corpo: é uma forma de expressão
e socialização de idéias, ou até mesmo a oportunidade de desabafar, de soltar
as suas emoções, vivenciar sensações e descobrir o mundo.
Para Quirós (1992, apud ELMAN; BARTH; UNCHALO, 1992,
p.12),
Nos
movimentos serão expressos sentimentos de prazer, frustração, desagrado,
euforia, como dimensão de um estado emocional, reconstruindo, assim, uma
memória afetiva desde os gestos iniciais da criança, na medida em que melhor
o indivíduo domina seu corpo e sentimentos. Gradativamente ele irá
conduzir-se com mais segurança no seu meio ambiente, e desta forma
movimentar-se adequadamente dentro de todo um processo educativo.
Nesse sentido, o desenvolvimento
psicomotor torna-se muito importante na vida da criança porque, partindo da
descoberta que ela faz do seu corpo, dos movimentos e de tudo que está ao seu
redor, consegue conquistar e organizar seu espaço, desenvolver sua percepção
auditiva e suas emoções, aprendendo aos poucos a coordená-las. (PONCHIELLI,
2003)
Segundo
Conceição (1984, apud MORAIS, 2002, p. 2),
compreende-se
desenvolvimento como a interação existente entre o pensamento consciente ou
não, e o movimento efetuado pelos músculos com ajuda do sistema nervoso.
[...] Os músculos trabalham juntos na educação psicomotora do indivíduo,
fazendo com que ele evolua.
Com base nesses autores, podemos
afirmar que, para alcançarmos um bom desenvolvimento psicomotor da criança as
atividades precisam ser bem elaboradas e executadas de maneira a
proporcionar-lhe prazer ao realizá-las.
Nessa
perspectiva, faz-se necessário a presença de um especialista em Educação
Física que realize um trabalho conjunto com o professor que
atua na sala de aula, durante a permanência do aluno na escola. A
Psicomotricidade nada mais é que se relacionar através da ação, como um meio
de tomada de consciência que une o ser corpo, a mente e o espírito. A
Psicomotricidade está associada à afetividade e à personalidade, já que o
indivíduo utiliza seu corpo para demonstrar o que sente. (LIMA; BARBOSA,
2007)
1 conceituando a psicomotricidade
Ernest
Dupré, em 1907, introduziu a psicomotricidade no contexto científico,
enunciando a lei que surgiu do seu trabalho. Em 1909, surgiu o termo
psicomotricidade, quando Dupré introduziu os primeiros estudos sobre a
debilidade motora nos débeis mentais.
(SABOYA, 1995)
Para
Negrine (1995), a psicomotricidade origina-se do termo psyché, que significa alma, e do verbo latino moto, que significa agitar fortemente.
Sobre
o conceito de psicomotricidade, Otoni (2007, p. 1) fala que:
A
Sociedade Brasileira de Psicomotricidade a conceitua como sendo uma ciência
que estuda o homem através do seu movimento nas diversas relações, tendo como
objeto de estudo o corpo e a sua expressão dinâmica. A Psicomotricidade se dá
a partir da articulação movimento/ corpo/ relação. Diante do somatório de
forças que atuam no corpo - choros, medos, alegrias, tristezas, etc. - a
criança estrutura suas marcas, buscando qualificar seus afetos e elaborar as
suas idéias. Constituindo-se como pessoa.
Diversos autores
apresentaram conceitos relacionados a psicomotricidade. De acordo com Vayer
(1986), a educação psicomotora é uma ação pedagógica e psicológica que
utiliza os meios da educação física com o fim de normalizar ou melhorar o
comportamento da criança. Segundo Coste (1978), é a ciência encruzilhada, na
qual se cruzam e se encontram múltiplos pontos de vista biológicos,
psicológicos, psicanalíticos, sociológicos e lingüísticos.
Saboya
(1995) define a psicomotricidade como uma ciência que tem por objetivo o
estudo do homem, através do seu corpo em movimento, nas relações com seu
mundo interno e seu mundo externo. Para Ajuriaguerra (1970),
é a ciência do pensamento através do corpo preciso, econômico e harmonioso.
Já Barreto (2000) afirma que é a integração do indivíduo, utilizando, para
isso, o movimento e levando em consideração os aspectos relacionais ou
afetivos, cognitivos e motrizes. É a educação pelo movimento consciente,
visando melhorar a eficiência e diminuir o gasto energético.
A psicomotricidade é
atualmente concebida como a integração superior da motricidade, produto de
uma relação inteligível entre a criança e o meio. (LIMA; BARBOSA, 2007).
A Psicomotricidade contribui de
maneira expressiva para a formação e estruturação do esquema corporal e tem
como objetivo principal incentivar a prática do movimento em todas as etapas
da vida de uma criança. Por meio das atividades, as crianças, além de se
divertirem, criam, interpretam e se relacionam com o mundo em que vivem. Por
isso, cada vez mais os educadores recomendam que os jogos e as brincadeiras
ocupem um lugar de destaque no programa escolar desde a Educação Infantil.
(LIMA; BARBOSA, 2007)
Segundo
Barreto (2000, p. 1), “O desenvolvimento psicomotor é de suma importância na
prevenção de problemas da aprendizagem e na reeducação do tônus, da postura,
da direcionalidade, da lateralidade e do ritmo”.
A abordagem da Psicomotricidade
permite a compreensão da forma como a criança toma consciência do seu corpo e
das possibilidades de se expressar por meio dele. A educação psicomotora,
para ser trabalhada, necessita que sejam utilizadas as funções motoras,
perceptivas, cognitivas, afetivas e sócio-motoras, pois assim a criança
explora o ambiente, realiza experiências concretas e é capaz de tomar
consciência de si mesma e do mundo que a cerca. (LIMA; BARBOSA, 2007)
1.1 OUTROS
Conceitos RELACIONADOS À PSICOMOTRICIDADE
O
conceito de corpo não pode ser ensinado, por isso quando a criança consegue
desenhar o seu próprio corpo é por que ela já o tem internalizado, ou seja,
ela já possui uma imagem mental dele, que é criada na medida em que brinca,
explora e usa o seu corpo. (LIMA, 2006)
Para
Oliveira (1992, p. 47), "... a criança tem uma representação gráfica da
imagem de si. Podemos inferir esta imagem através de seu desenho de figura
humana”.
Assim, o esquema corporal é a noção de corpo
que a criança tem do seu próprio corpo, é a representação de suas
experiências, é a consciência global do corpo, à medida que se desenvolve a
criança chega a ter a consciência corporal atingindo o adequado controle, manejo
e conhecimento de suas partes nomeando-as e reconhecendo suas funções, já a
imagem corporal é subjetiva, é simbólica. (LIMA, 2006)
Quando
desenha uma figura humana a criança o faz do modo como ela o concebe, do modo
como ela o percebe. Para ser interpretado, o desenho de uma criança deve ser
analisado não na sua imagem desenhada, mas sim no modo como é revelado pelo
diálogo analítico com a criança.
Oliveira
(1992, p. 58), citando Lê
Boulch diz que o esquema corporal passa por três fases
distintas, a saber:
·
Corpo Vivido: corresponde à fase
sensório-motora de Piaget, começa nos primeiros meses de vida, nela o bebê
ainda não tem noção do "eu", confundindo-se com o meio e seus
movimentos são atividades motoras que não são pensadas para serem executadas.
·
Corpo percebido: corresponde ao período
pré-operatório de Piaget, começa por volta dos dois anos quando a criança
passa a perceber-se, e tem-se o início da tomada de consciência do
"eu". Diferencia-se do meio, organizando o espaço levando em conta
o seu próprio corpo, começa assim a construir uma imagem mental dele. Os
conceitos espaciais como perto, longe, em cima ou embaixo começam a ser
discriminados; as noções temporais relativas à duração, ordem e sucessão de
eventos são compreendidas.
·
Corpo representado: corresponde ao
período operatório de Piaget. Começa aproximadamente aos sete anos quando a
criança já tem noção do todo e das partes de seu corpo, assumindo e
controlando seus movimentos com autonomia e independência. No final dessa
fase, a criança já tem uma imagem de corpo operatória, usando-o para efetuar
e programar mentalmente ações e orientando-se por pontos de referência que
podem ser escolhidos.
Outro
conceito que se relaciona a psicomotricidade é a lateralidade. Este conceito
traduz-se pelo estabelecimento da dominância lateral da mão, olho e pé, do
mesmo lado do corpo (REZENDE; GORLA; ARAÚJO; CARMINATO, 2003).
Entende-se por lateralidade,
portanto, o uso preferencial de um dos lados do corpo ao nível dos olhos,
mãos e pés ao se realizar as atividades. Esse lado dominante apresenta mais
força muscular, precisão e rapidez que o lado não dominante.
Rezende; Gorla; Araújo; Carminato
(2003, p. 6) afirmam que,
[...] geralmente acontece a
confusão da lateralidade com a noção de direita e esquerda, que esta
envolvida com o esquema corporal. A criança pode ter a lateralidade
adquirida, mas não saber qual é o seu lado direito e esquerdo, ou vice-versa.
No entanto, todos os fatores estão intimamente ligados, e quando a
lateralidade não está bem definida, é comum ocorrerem problemas na orientação
espacial, dificuldade na discriminação e na diferenciação entre os lados do
corpo e incapacidade de seguir a direção gráfica.
A
estruturação espaço-temporal decorre como organização funcional da
lateralidade e da noção corporal, uma vez que é necessário desenvolver a
conscientização espacial interna do corpo antes de projetar o referencial
somatognósico no espaço exterior (FONSECA, 1995).
Esse fator
emerge das múltiplas relações integradas da tonicidade, do equilíbrio, da
lateralidade e do esquema corporal. A estruturação espacial leva à tomada de
consciência pela criança, da situação de seu próprio corpo em um determinado
meio ambiente, conscientizando-se do lugar que ocupa no espaço bem como sua
relação com outras pessoas e coisas. (REZENDE; GORLA; ARAÚJO; CARMINATO,
2003)
A estruturação espacial não nasce
com a criança, é uma construção mental, uma elaboração, iniciando-se com a
relação afetiva entre mãe e filho. A criança que possui as noções de imagem
corporal bem desenvolvidas consegue perceber a posição que os objetos ocupam,
usando seu corpo como ponto de referência. Para assimilar os conceitos
espaciais a criança necessita ter uma lateralidade bem definida.
Sobre a estruturação temporal,
podemos dizer que, as noções de corpo, espaço e tempo estão intimamente
ligadas. Essa noção é muito importante para a criança aprender a ler, pois
necessita ter domínio do ritmo, uma sucessão de sons no tempo, uma memória
auditiva, uma diferenciação de sons, um reconhecimento das freqüências e das
durações dos sons das palavras. Será a orientação temporal que proporcionará
à criança a capacidade de se localizar em acontecimentos passados e se
projetar no futuro. É, também, importante a criança ter domínio das noções
sociais do tempo (horas, mês, estações etc.).
Para
Fonseca (1995, apud CEZAR; PEREIRA; ESTEVES, 2008, p. 2),
um
objeto situado à determinada distância e direção é percebido porque as
experiências anteriores da criança levam-na a analisar as percepções visuais que
lhe permitem tocar o objeto. É dessas percepções que resultam as noções de
distância e orientação de um objeto com relação a outro, a partir das quais
as crianças começam a transpor as noções gerais a um plano mais reduzido, que
será de extrema importância quando na fase do grafismo.
1. 2 a importância do desenvolvimento psicomotor
para as aprendizagens escolares
De acordo com Negrine (1980), os
exercícios psicomotores são uma das aprendizagens escolares básicas porque
são determinantes para a aprendizagem da escrita e da leitura.
Estudos mostram que muitas das
dificuldades em escrita podem ser prevenidas por meio de atividades motoras,
assim sendo podemos afirmar que, por meio de jogos podemos contribuir na
melhora do desempenho em escrita nas séries iniciais da alfabetização.
Os exercícios psicomotores devem ser uma das aprendizagens escolares básicas,
pois são determinantes na aprendizagem da escrita. Isso significa que o jogo
e o brinquedo atuam na prevenção das dificuldades advindas do desenvolvimento
inadequado do corpo, sendo, portanto, um valioso instrumento nas escolas
quando adaptado às fases do desenvolvimento infantil.
Dentre os estudos que tratam da
importância do desenvolvimento psicomotor para as aprendizagens escolares,
citamos o de Petry (1988) que reafirma essa importância ressaltando que as
dificuldades de aprendizagem em crianças de inteligência mediana podem se
manifestar quanto à caracterização de letras simétricas pela inversão do
“sentido direita-esquerda”, como, por exemplo, d, b, p, q ou por inversão do
“sentido em cima em baixo”, d, p, n, u, ou, ainda, por inversão das letras
ora, aro.
Para Negrine (1980, p. 61), as
dificuldades de aprendizagem vivenciadas pelas crianças “são decorrentes de
um todo vivido com seu próprio corpo, e não apenas problemas específicos de
aprendizagem de leitura, escrita etc.”.
Para Ajuriaguerra (1988, apud
CEZAR; PEREIRA; ESTEVES, 2008, p. 2),
a
escrita é uma atividade que obedece a exigências precisas de estruturação
espacial, pois a criança deve compor sinais orientados e reunidos de acordo
com normas, a sucessão faz destes sinais palavras e frases, tornando a
escrita uma atividade espaço-temporal.
Fonseca
(1983, apud CEZAR; PEREIRA; ESTEVES, 2008, p. 2) afirma que,
na
aprendizagem da leitura e da escrita a criança deverá obedecer ao tempo de
sucessão das letras, dos sons e das palavras, fato este que destaca a
influência da estruturação temporal para a adaptação escolar e para a
aprendizagem.
Segundo
Tomazinho (2002), a pré-escola necessita priorizar, não só atividades
intelectuais e pedagógicas, mas também atividades que propiciem seu
desenvolvimento pleno. De acordo com Oliveira (1996, p. 182), a
psicomotricidade contribui para o processo de alfabetização à medida que
proporciona à criança as condições necessárias para um bom desempenho escolar
através da livre expressão e “[...] deve começar antes mesmo que a criança
pegue um lápis na mão [...]”.
A
escrita pressupõe, portanto, um desenvolvimento motor adequado, e habilidades
como a espacial e a temporal são essenciais para que essa atividade ocorra de
maneira satisfatória. De acordo com Ajuriaguerra (1988), além das habilidades
cognitivas, as habilidades psicomotoras, são essenciais para o ato de
escrever, pois ele está impregnado pela ação motora de traçar corretamente
cada letra e constituir a palavra.
2 vivenciando
a importância da psicomotricidade para as aprendizagens na educação infantil
Ciente de que nós, educadores que atuamos na área de
Educação Infantil e demais séries iniciais, somos responsáveis pela formação
básica de nossas crianças, decidi investigar como se dá o processo de
construção de conhecimentos de uma criança na Educação Infantil e de que
forma o trabalho com a psicomotricidade interfere e/ou auxilia nesse processo
de construção.
Essa pesquisa foi, portanto, baseada na observação e
estudo de crianças de quatro e cinco anos que foram minhas alunas no Pré I,
no ano de dois mil e sete (2007). A sala era heterogênea e a maioria das
crianças não conhecia o próprio nome e nem a primeira letra dele. Comecei,
então, a trabalhar conceitos como autonomia e identidade para que eles se
familiarizassem, se conhecessem e fossem construindo aos poucos esses
conhecimentos.
A
princípio, comecei investigando o nome do pai, da mãe, pedi que
representassem a suas famílias por meio de desenhos para constatar como
concebiam o próprio esquema corporal. Aqueles que conseguiam registrar o
próprio nome o fizeram também.
Para
ilustrar, temos abaixo uma imagem de uma das atividades realizadas em sala de
aula com os alunos. Percebemos que a criança representa somente a cabeça, que
tem apenas os olhos, e os membros inferiores em seu desenho, fato que
demonstrar que seu esquema corporal ainda está em processo de construção e
que devíamos intervir para ajudá-lo nesse processo.

Figura 1. Desenho
representativo do esquema corporal do aluno Vicente no início do ano.
Posteriormente,
associamos a letra inicial de cada um a algum objeto, agrupamos os nomes das
crianças que começavam com a mesma letra e assim sucessivamente.
Procurava aproveitar sempre nossa “roda de
conversa” para dialogar sobre eles e seus familiares e em nossas brincadeiras
procurei levá-los a se conscientizarem de que eram formados por um corpo
divido em partes e depois de alguns meses trabalhando esses conceitos pude
perceber, comparando as atividades realizadas no início do ano com as
realizadas no final de 2007, que mesmo as crianças que representavam sua
imagem corporal de forma rudimentar haviam evoluído a forma de representá-lo.
Realizei meu trabalho com
base em autores como Mattos e Neira (1999) que propõem atividades que
propiciem à criança o conhecimento da nomenclatura, localização e
conhecimento das diferentes partes do corpo em si e no outro; exploração das
diferentes posições do corpo, como de pé, deitada, sentada, inclinada, na
posição de bípede, etc.; o conhecimento dos tipos e as fases da respiração e
o relaxamento global e das partes que não estão sendo solicitadas em
determinadas atividades.
Rosa e Nisio (2002),
também propõem que a estimulação do Esquema Corporal torna o corpo da criança
como um ponto de referência básico para a aprendizagem de todos os conceitos
indispensáveis à alfabetização (noções de em cima, em baixo, na frente,
atrás, esquerdo, direito), assim como permite também seu equilíbrio corporal
e dominar seus impulsos motores, que se não forem bem trabalhados,
traduzem-se em dificuldades como a falta de controle de alguns segmentos
corporais, descoordenação e lentidão.
Durante
todo o ano letivo, direcionamos atividades para o desenvolvimento do conceito
de esquema corporal dentre elas:
·
Jogos de imitação;
·
Estátua;
·
Cantar músicas que falassem sobre as
partes do corpo;
·
Apontar as partes do corpo em si mesmo
e no corpo do colega;
·
Juntar as partes de um boneco desmontável
(quebra-cabeça);
·
Desenhar uma figura humana no quadro,
parte por parte.
·
Deitar no chão e desenhar o contorno
do corpo de uma das crianças, depois completar suas partes;
·
Explorar o próprio corpo com as mãos,
de olhos abertos e fechados, depois representá-lo utilizando vários materiais
como: guache, espuma, gel, farinha;
·
Releituras de obras artísticas que
privilegiassem o corpo humano;
·
Completar o desenho de uma figura
humana com o que estiver faltando etc.
Ao
final do ano, constatamos a evolução do traçado e a riqueza de detalhes que
aparece na figura 2. O corpo agora é formado por uma cabeça com olhos e boca,
os membros superiores aparecem e a criança consegue escrever seu nome.

Figura 2. Desenho
representativo do esquema corporal do aluno Vicente, no final do ano.
Distribuí fichas com o nome de cada criança,
todos os dias, para eles observarem, pedindo depois que tentassem escrever o
nome que estava na ficha, utilizando giz de cera. Como todo começo, esse
também não foi fácil, pois algumas crianças não tinham firmeza nas mãos ao
pegar ou segurar o giz de cera. Trabalhei, diariamente, o registro utilizando
o giz, indo sempre de mesa em mesa, estimulando-as a segurar o giz de forma
correta, a desenharem corretamente cada letra, a fazerem uma margem que
delimitasse o espaço a ser utilizado na folha, a desenvolver o sentido
esquerda-direita da escrita, melhorando assim a coordenação motora fina de
cada um.
A
figura 3 mostra a tentativa de escrita do próprio nome, feita pela aluna
Jéssica, no início do ano de 2007. Nela podemos perceber a dificuldade no
traçado gráfico das letras, a dificuldade em perceber o número de letras
necessário para escrever o próprio nome, além de percebermos que a
lateralidade dela ainda não estava desenvolvida, pois a letra “J” inicial de
seu nome foi traçada de forma espelhada, ou seja, ficou virada para o lado
contrário.

Figura 3. Tentativa
de escrita do próprio nome, feita pela aluna Jéssica, no início do ano.
Com
sabemos, o próprio nome é a primeira estrutura significativa para a criança,
e por isso, ao desenvolver as atividades diárias, sempre lhes pedia que
escrevessem o seu nome.

Figura 4. Escrita do
próprio nome, feita pela aluna Jéssica, no final do ano.
Algumas
crianças sentiam muitas dificuldades, pois ainda não tinham estruturada a
noção de esquema corporal, lateralidade, estruturação espacial, e
necessitavam trabalhar melhor a coordenação motora fina, habilidades
essenciais para se chegar à pré-escrita.
Aos poucos, passei também a
pedir-lhes para registrarem na folha chamex, que distribuía durante as aulas,
uma margem na qual delimitavam seus espaços e tentavam escrever seus nomes.
Na figura 5, podemos observar outra produção escrita de mais uma criança,
nela percebemos a omissão de uma letra “N”, a dificuldade no traçado gráfico
das letras “E”, e a outra letra “N” invertida.

Figura 5. Tentativa
de escrita do próprio nome, feita pela aluna Jenniffer, no início do ano.
A princípio, notei que algumas
crianças trocavam as letras ou colocavam-nas de cabeça para baixo, assim
percebi que precisaria trabalhar a lateralidade e conceitos topológicos com
eles como: em cima, em baixo e de lado, trabalhando a psicomotricidade.
Depois
de algum tempo, insistindo na escrita do nome, percebemos que a aluna
consegue traçá-lo com mais segurança e clareza, sem omissão de letras e sem
escrita espelhada.

Figura 6. Escrita do
próprio nome, feita pela aluna Jenniffer, no final do ano.
Na
figura 6, temos outro exemplo de tentativa de escrita, realizada pela aluna
Laysa. Nela, podemos observar que a aluna não traçou toda a margem na pagina,
omitiu as letras “Y” e “S”, inverteu a ordem das letras “L” e “A”, além de
escrevê-las de cabeça para baixo.

Figura 7. Tentativa
de escrita do próprio nome, feita pela aluna Laysa, no início do ano.
Realizei
várias atividades durante o ano com desafios, envolvendo a coordenação motora
fina, lateralidade e a noção espacial no intuito de desenvolver a capacidade
de representação escrita do nome. Dentre essas atividades, podemos citar:
·
Jogo do alinhavo;
·
Circuitos em forma de círculos ou
outras formas geométricas, marcados com fita crepe ou giz branco no chão,
para as crianças perceberem a delimitação do espaço;
·
Circuitos mais complexos, utilizando
pneus, bastões, caixas, escadas, cordas, garrafas e quaisquer outros
materiais disponíveis na escola;
·
Desenho de linhas curvas no chão para
testar a sua rapidez; delimitando caminhos com fita crepe, por onde teriam
que passar sem sair fora e posteriormente, uma linha, onde teriam que passar
em cima sem escorregar;
·
Batata quente, na qual a criança
passava o objeto que tinha nas mãos, trabalhando não só a lateralidade como
também a atenção, através da musicalização;
·
Cantava músicas, como a das vogais,
com as crianças que aos poucos foram assimilando os conteúdos trabalhados. Ao
escrever o nome como, por exemplo, a letra A, eu falava para eles era o
chapéu do vovô com um traço no meio etc.
Após
esse trabalho, constatei o avanço da aluna Laysa, conforme podemos observar
na figura 8, embora ainda demonstrasse dificuldades com a lateralidade, pois
escreveu a letra “S” invertida não houve omissão de letras, nem letras de
cabeça para baixo.

Figura 8. Escrita do
próprio nome, feita pela aluna Laysa, no final do ano.
Com esse trabalho, percebi o
quanto estava sendo importante estimular os movimentos, explorando os grandes
e pequenos músculos. Já no início da alfabetização, a criança começa a
manusear o lápis e para isso é preciso saber a direção e o limite espacial da
folha, saber escrever o próprio nome em seqüência correta. Por isso, tive
muito cuidado ao elaborar meu planejamento, procurando envolver as crianças,
através de estímulos em atividades interdisciplinares, enfocando
principalmente o movimento, no qual elas tiveram oportunidade de explorarem todo
o seu corpo.
Outras atividades foram realizadas
para complementar esse processo de construção de aprendizagens:
·
Modelagem de massinhas para as
crianças construírem o seu nome;
·
Atividades de pesquisa e recorte de
letras que formavam o nome de cada um em revistas e jornais;
·
Trabalho com a ordem alfabética a
partir dos nomes dos alunos;
·
Análise não-silábica dos nomes das
crianças, observando: quantas letras compõem o nome de cada um; quantas
vogais e quantas consoantes têm cada nome; quais as letras que se repetem nos
nomes de cada um; quais as letras comuns nos nomes das crianças, que outras
palavras ou nomes começam com a mesma letra do nome deles;
·
Jogos de memória etc.
Atividades
para explorar o espaço e o esquema corporal no pátio da unidade foram muito
significativas nesse trabalho, realizamos com as crianças uma série de
exercícios, através de brincadeiras cantadas, nas quais elas podiam: andar
diferente, andar depressa, correr, andar em trave de equilíbrio, andar para o
lado direito, esquerdo, para frente e para trás, subir, descer, pular,
equilibrar-se, etc. Pretendíamos, com essas atividades de psicomotricidade,
que o trabalho com a alfabetização fosse facilitado, que se ativassem os
esquemas mentais dos alunos levando-os a ter equilíbrio, força, resistência,
coordenação. A figura 9 ilustra um esquema de circuito psicomotor realizado
no pátio com as crianças.

Figura 9. Exemplo de
circuito psicomotor realizado no pátio com as crianças.
Conforme
a Proposta Pedagógica do CEMEI no qual realizamos a pesquisa, os
profissionais elaboram e executam os projetos de acordo com o centro de
interesse da criança. Assim, nesse ano elaboramos um projeto para
comemorarmos a semana da criança, no qual cada turma tinha liberdade de
selecionar suas atividades. Na turma de 4 anos, procuramos realizar
atividades variadas, envolvendo o esquema corporal, linha movimento, através
de gincanas, pula-pula, cama elástica, nos quais se iam aumentando os
desafios no circuito psicomotor gradativamente, a fim de possibilitar à criança
trabalhar seu desenvolvimento motor.
Posteriormente,
no projeto sobre a “Água”, exploramos
com os alunos medida de capacidade integrada à psicomotricidade, da seguinte
forma: inicialmente, demos a eles um
copinho de café descartável, pedindo-lhes que enchessem uma garrafa pet, de
água, usando o menor tempo possível, de forma que quem terminasse primeiro
seria o ganhador. Com essa atividade exploramos o esquema corporal e a coordenação
motora fina, preparando a criança para ter mais destreza nas mãos ao escrever
e desenhar.
De acordo com Lima
e Barbosa (2007, p. 2),
[...] a recreação,
através de atividades afetivas e psicomotoras, constitui-se num fator de
equilíbrio na vida das pessoas, expresso na interação entre o espírito e o
corpo, a afetividade e a energia, o indivíduo e o grupo, promovendo a
totalidade do ser humano.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com o desenvolvimento deste estudo, constatamos que o jogo pode
ser reconhecido como um valioso instrumento de trabalho nas escolas, por isso
podemos afirmar que o jogo e o brinquedo devem ser favorecidos nas
instituições escolares como prevenção das dificuldades provenientes do
desenvolvimento inadequado do corpo.
De acordo com Tubelo (2006), a escola deve propiciar aos
educandos diversas vivências, sejam elas corporais, visuais, auditivas, para
que se estimulem os sentidos para que a criança desenvolva as habilidades
psicomotoras necessárias para o aprendizado, principalmente o da linguagem
escrita. Segundo a autora, as brincadeiras e os jogos são importantes para
que a criança possa construir significados mais adequados para o que é
ensinado na escola.
Com base na fala da referida
autora, pude perceber, então, que a promotricidade é fundamental na vida da
criança desde o primeiro ano de idade, já que mesmo através dos movimentos a
criança se expressa. Fato que constatamos ao trabalhar com crianças do Pré I,
pois algumas crianças sentiam dificuldades em certos momentos, por não terem
sido estimuladas nos anos anteriores.
Geralmente,
acontecia quando distribuía lápis de cor ou giz de cera, nesses momentos
percebia que algumas crianças não sabiam sequer como pegá-lo e/ou manuseá-lo.
Porém, era necessário que as crianças estivessem sempre com o lápis na mão,
era um exercício contínuo, no intuito de desenvolver sua coordenação motora
fina, desta forma sempre insistia nesse trabalho.
Ter as crianças como objeto de
pesquisa foi gratificante para mim, pois pude aprender muito com elas,
através das atividades propostas, com as brincadeiras, jogos, etc. e percebi
que o amadurecimento das habilidades motoras acontecia quase imediato e o
crescimento da turma evidenciou-se. Fico muito feliz hoje, quando a
supervisora de minha escola elogia o rendimento da turma, fazendo comparações
entre o nível em que estavam e o que agora se encontram, graças a esse
trabalho sistematizado e freqüente com a psicomotricidade.
Pude, ainda, com essa pesquisa
aprender mais sobre os mistérios dos movimentos do corpo que estão
interligados com as demais áreas do conhecimento, como a linguagem oral, a
escrita, as artes visuais, o raciocínio lógico-matemático entre outros, o que
me tornou ainda mais habilitada para executar meu trabalho junto às crianças,
das quais sou responsável.
Constatei que, por mais que se
fale de objetivos para serem alcançados em relação à psicomotricidade, cada
pessoa tem a sua hora, a sua maturidade física e pedagógica e ela deve ser
respeitada.
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