
SEM CONCESSÕES AO LEITOR
Renatho Costa *
GRECO,
Felipe. Memórias do Asfalto. São Paulo: Editora Desatino, 2007.
Memórias
do Asfalto é o
terceiro livro de Felipe Greco, seu segundo romance. Em seu primeiro livro de
contos intitulado Caçadores Noturno, Felipe enveredava pela noite
paulistana para decifrá-la, ou melhor, radiografá-la através de seus
personagens que dificilmente encontrariam espaço para viver sob a luz do dia.
Outsiders!
O
Coveiro foi seu
primeiro romance. Nele somos convidados a acompanhar a trajetória de Ramiro.
Novamente o cenário dessa epopéia marginal – se é que podemos utilizar uma
classificação como essa sem restringir a grandeza do romance – se passa nas
noites paulistanas, em regiões da cidade onde a população prefere não olhar
(Praça da República, cracolândia, etc.),
ainda mais ajudada pela pouca iluminação desses locais.
Em 2007, Felipe Greco lançou Memórias do Asfalto. O romance já havia sido agraciado pela
premiação de melhor obra juvenil concedida pela Secretaria de Estado da
Cultura de São Paulo (PAC 26). Um
prêmio que atraiu a atenção de um público – o jovem, o adolescente – pouco
acostumado com a temática de Felipe.
Nessa obra, Felipe Greco não abandona
suas referências paulistanas, ou seja, acompanhar a trama de Xexéu – o garoto
protagonista desse romance – é fazer um tour
pelas partes da cidade que a população preferiria esquecer. Praça da Sé,
Centro Velho, Febem, dentre outros lugares, ambientam a trajetória do menino.
Xexéu não é um menino diferente dos
demais que vivem na periferia de São Paulo, ou de qualquer grande cidade
brasileira. Nesse sentido, a ambientação regional do romance em nada
prejudica no desenvolvimento da trama, contudo, àqueles que conhecem a cidade
têm a impressão de estarem vivendo a ação no momento em que é narrada, tal a
maestria narrativa de Felipe.
Esse menino negro, pobre, criado pela
mãe e avó, com um irmão mais novo, reflete com fidelidade ímpar a realidade
brasileira. Nela se constata a mudança do paradigma social, ou seja, a mulher
assumindo a responsabilidade por manter a família e a casa. Essa é a
obrigação da mãe de Xexéu.
Mas como nada na vida do protagonista
do romance é perene, a pequena estabilidade dessa estrutura familiar logo é
rompida com a morte da mãe e retorno da avó para o nordeste – levando o irmão
mais novo. Xexéu vai morar com o tio, mas também não fica por ali por muito
tempo.
Nesse momento da história, Felipe
desloca a narrativa dos conflitos familiares para expor uma realidade
extremamente dura, qual seja, a vida dos meninos que moram nas ruas. E ali é
salientada uma característica que muitas vezes não chega à população: os
meninos e meninas que vivem pelas ruas não são livres, o espaço público é
loteado pelos mais fortes:
As calçadas são territórios livres
para aqueles que não precisam viver ao relento. Já para os desabrigados, elas
se transformam em propriedade particular. É preciso pagar aluguel pela vaga
na marquise, para tirar o encardido no chafariz da praça, pedágio pra bater
umas carteiras no calçadão, dar propina pra alguns tiras pilantras não
levarem o menor infrator para o reformatório; enfim, nada é de graça. (p. 31)
A passagem de Xexéu pelas ruas faz
com que ele vá parar na antiga FEBEM – hoje Fundação Casa – e, nesse momento,
o que poderia fazer com que a trama fosse transformada num Pixote,
muda completamente de figura porque
surge a possibilidade de redenção desse menino, uma maneira para que ele
deixe a vida de marginal e exponha seus dotes. Xexéu descobre-se um artista
dotado de grande talento para desenhar.
No entanto, Felipe Greco não permite que seu
romance seja mais um conto de fadas. Aqui ele quebra qualquer expectativa
romântica de narrar uma história de sucesso, para catapultar o personagem a
uma situação mais complexa ainda. Xexéu, vítima de uma armação
político-eleitoreira, acaba se transformando num líder de rebelião. Como
resultado, foge da FEBEM, mas fica sem ter para onde ir. Até porque, com
muita “realidade”, Felipe expõe a dramática situação do jovem que não tem
referências.
Sem ter para onde ir, resolve buscar
uma última possibilidade de ajuda, Lurdinha. Grande paixão da infância, ainda
quando vivia com sua mãe, Lurdinha era o que Xexéu sempre idealizou para ser
sua namorada, esposa... mulher da sua vida!
Lurdinha se vê surpresa ao encontrar
Xexéu à sua porta, auxilia o amigo e conta as notícias: se casara, mas o
marido morreu. Agora estaria numa
encruzilhada da vida. O que se configurava numa tragédia para Lurdinha,
surgia como um lampejo de esperança para Xexéu. Com seu amor de infância
Xexéu tem sua primeira experiência sexual, mas, novamente, Felipe não aponta
para um happy end.
Na manhã seguinte à realização do
mais secreto dos sonhos de Xexéu, Lurdinha volta para a casa de sua mãe no
intuito de ser aceita novamente e poder retomar seus estudos. Xexéu tem de
voltar para a rua, mas antes pega algumas roupas do ex-marido de Lurdinha e
sente-se como “uma pessoa importante”.
A
crítica social de Felipe Greco é de uma objetividade extremada e isso fica
ainda mais evidente quando Xexéu expõe sua percepção de uma viagem de metrô
trajando as roupas do ex-marido de Lurdinha:
Eu
já havia andado de metrô, mas essa era a primeira vez que pagava a passagem e
que ninguém me olhava feio ou tentava me expulsar do trem. Percebi então que
a boa aparência e a grana no bolso eram o passaporte para esse lado da
realidade que eu ainda desconhecia. (p. 65)
Outra vez, a sensação de Xexéu, isolado na
cidade, é reforçada. Procurado pela polícia como um criminoso, torna-se um
andarilho. O contraste entre o gigantismo da cidade e o aprisionamento, como
se estivesse numa gaiola – haja vista o menino ter se tornado vítima de uma injustiça,
e não pode sair dali – é explicitado ainda mais.
No
desenvolvimento da trama de Memórias do
Asfalto, Felipe Greco ainda traz mais uma possibilidade de redenção para
Xexéu. Durante uma fuga, após brigar com alguns meninos de rua num bar, Xexéu
vai parar na Pinacoteca de São Paulo. Que outro lugar poderia ir esse
personagem que, segundo o autor nos apresenta, trata-se de um artista nato.
A sensação de êxtase de
Xexéu diante da beleza das obras e da ostentação do edifício impressiona, mas
é num acidente com um cadeirante, no banheiro da Pinacoteca, que sua vida,
novamente, apresenta a oportunidade de mudança.
Um cadeirante entra rapidamente no banheiro,
arremessa Xexéu ao chão – fazendo que ele se machuque e seu nariz sangre. Em
seguida entra um homem atrás do cadeirante e presta auxílio a Xexéu. O
cadeirante diz para esse homem, Chicão, dar algum dinheiro para que o rapaz
vá embora e não crie confusão.
Depois
desse primeiro encontro, Xexéu vai caminhar pela Pinacoteca e posta-se diante
de um grande quadro. Em seguida ouve uma pessoa perguntar sua opinião acerca
dele. É o cadeirante.
A
relação de Xexéu com esse cadeirante – Manolo Cardia – torna-se ainda mais
complexa quando ele fica sabendo que o autor da obra que observava era o
próprio. Com esse relacionamento Felipe Greco apresenta as múltiplas formas
de trocas entre pessoas de realidades completamente distintas, mas ligadas
pelo talento – nesse caso, a pintura.
A
ingenuidade e bom-humor de Xexéu conquistam Manolo fazendo com que o menino
aceite refugiar-se em sua casa enquanto resolve sua situação com a Justiça.
Manolo fora o artista revelação que não conseguiu viver com o sucesso e
tornou-se arrogante e insuportável, mas que buscava a redenção.
Manolo,
já em sua casa, avalia sua vida a partir da perspectiva das possibilidades de
Xexéu, e lhe diz:
-
Mas nesta manhã, quando eu quase quebrei o seu nariz naquele banheiro, foi
como se um anjo surgisse de repente para me mostrar que, mais uma vez, eu
estava fazendo a pior escolha. Depois, você, com essa sua admirável teimosia
em continuar sorrindo, apesar de tudo que já lhe fizeram sofrer, veio e foi
passando como um rolo compressor por cima do meu egoísmo. Muito obrigado, meu
amigo, por me curar da minha cegueira! Sua alegria me salvou! (p. 98-9)
Como a trama de Felipe Greco é uma autêntica
montanha russa, novamente o leitor é levado a vislumbrar que a redenção do
pintor Manolo possa ser o caminho que levará Xexéu à tranqüilidade. Mero
engano.
Revelar
o final dessa obra, completamente envolvente, não acrescentaria muito à sua
análise, assim, o primordial é constatar que o que atrai jovens e adultos à
trama é a habilidade de Felipe Greco em mesclar a dura realidade de um
“menino de rua” com o dinamismo de sua linguagem literária. Também, utilizar
a narrativa em primeira pessoa cria maior cumplicidade com o leitor, fazendo
com que as angústias, alegrias e esperanças sejam compartilhadas.
Dessa
forma, num romance de pouco mais de cem páginas, temas de extrema
importância, tais como relação familiar, exploração de menores, uso e tráfico
de drogas, além de componentes políticos, são expostos para que sejam
pensados nos intervalos para respirar.
Memórias do Asfalto é
o tipo de romance que não se acaba com o virar da última página, até porque,
a reflexão proposta pela trama transcende a si.
Fonte
da imagem:
Pinacoteca:
www.pinacoteca.sp.gov.br

|