
A ESCOLA COMO ESPAÇO SOCIAL E
A EDUCAÇÃO NOS DIAS DE HOJE
Paulo Raphael Feldhues*
RESUMO
Qual o papel da escola e do professor na
formação educacional do aluno? O presente artigo discorre sobre os variados
campos sociais em que a educação está presente e como a escola se localiza
nesse meio. O objetivo aqui é identificar o elemento social presente na
educação escolar e vislumbrar as modificações ocorridas nos últimos anos nas
tendências pedagógicas. Para tal, o texto oferece três enfoques relacionados:
a escola e a formação do espaço social; a evolução dos modelos de ensino; e a
educação brasileira na atualidade.
PALAVRAS-CHAVE
Educação, Pedagogia e Sociedade.
ABSTRACT
What
is the part from school and of the teacher on educational formation of the
disciple? The gift article consider on the subject of the varied social areas
what the education is present and how the school is locate in this society.
The purpose here is identify the part social present on schooling and catch a
glimpse the mutations occurred on the last years on the tendencies of
pedagogy. About to as, the text it offers three related focus: the school and
the training of the social space; the evolution from the models of tuition;
and the Brazilian education on actuality.
KEYWORDS
Education, Pedagogy,
and Society.
É possível que quando se fale em educação,
a primeira lembrança que venha à mente seja a escola. Esta, assim como as
universidades e os centros tecnológicos de ensino, faz parte do que comumente
é chamado de instituições oficias de
ensino. No Brasil, parte destas instituições é oferecida gratuitamente
pelo Estado e possuem, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
de 1996, entre outras funções, a de desenvolver intelectualmente o indivíduo
capacitando-o para o mercado de trabalho. A formação educacional do ser
humano, contudo, não reconhece compartimentações fixas e escapa aos limites
da orientação oficial. Isso ocorre pelas múltiplas experiências que passamos
ao longo da vida. O aluno não apenas trabalha com as informações levantadas
em sala de aula, mas também desenvolve novos conhecimentos, por exemplo, nas
brincadeiras extra-sala com colegas. Pais, funcionários e alunos interagem
cotidianamente. Dessa forma, o aprendizado na escola também se dá pelo
convívio. É essa característica que proporciona uma experiência coletiva
tornando a escola um espaço social.
Ao afirmarmos que o convívio é um
dos caminhos para a aprendizagem reconhecemos que a formação educacional não
permanece restrita às instituições oficiais de ensino. O primeiro lócus dessa formação é, de fato, a
família, uma unidade social em que as tradições e as práticas são herdadas.
Além da família, a igreja, o clube e tantos outros espaços de convívio formam
a grande variedade de instituições não-oficiais de educação.
O caminho trilhado pelo pensamento
educacional especializado foi longo e, por vezes, contraditório. Para retomar
apenas as últimas influências faz-se necessário relembrar John Lock e sua
filosofia política do liberalismo, na Inglaterra do século XVII. Talvez a
cristalização mais nítida desse pensamento tenha se dado em A Riqueza das Nações, obra de Adam
Smith. Smith alegou em seu trabalho que a economia global sofre influência de
uma “mão invisível”, a qual corrige as distorções do comércio. Assim, o ato
de um governo barrar determinadas importações – protecionismo – foi visto
pelo autor como uma imprudência, uma vez que o comércio livre entre países
traria o desenvolvimento geral, pois as possíveis perdas que uma nação
acumulasse seriam compensadas mais adiante por um ajustamento natural
promovido pela “mão invisível”. Ao ser traduzido para a educação, o
liberalismo demonstrou incapacidade de atender as particularidades do
educando. Exemplos desse modelo são a Escola Tradicional, a Escola Nova e a Escola
Tecnicista.
Herdeira do formato jesuíta, a
Escola Tradicional enfatiza o aprendizado pela repetição, a relação
professor-aluno é vertical, e o conhecimento pretende ser inoculado no
educando. Por volta dos anos 1930, o crescimento urbano e industrial levaram
a intelectualidade brasileira a repensar o modelo educacional em voga,
ajustando-o ao contexto de acelerada transformação pela qual passava o país.
A Escola Nova surgiu com o ideário de trazer a igualdade e a justiça social
pela ampliação das unidades de ensino laicas e gratuitas. Já entre as décadas
de 1960 e 1970 a pedagogia tecnicista ganhou espaço nos projetos da ditadura
militar para o Brasil. A formação de um “saber útil” visava fornecer
mão-de-obra à expansão econômica nacional: a educação era m dos caminhos. O
fato é que os três modelos buscavam um aprendizado em bloco e, como marca do
liberalismo, acreditavam que a mera existência de um paradigma educacional
seria suficiente para alterar a realidade. Em outras palavras, a educação
liberal advogava que “transferindo” um conteúdo ou ampliando as escolas seria
possível chegar aos resultados esperados naturalmente, a “mão invisível”
faria todo o trabalho de ajustamento do modelo à realidade. A pedagogia
liberal, embora resista, sofre progressivo desuso.
Por outro lado, a concepção
progressista de educação vem ganhando cada vez maior número de adeptos entre
os especialistas. Mais uma vez três
modelos exemplificam o paradigma: a Escola Libertária, caracterizada pela liberdade
teórico-metodológico do educador; a Escola Libertadora, idealizada por Paulo
Freire e crítica da realidade social; e a perspectiva histórico-crítica, que
enfatiza o aprendizado a partir da carga histórica já vivenciada. A educação
progressista, sobretudo os dois últimos modelos, forneceu as bases teóricas
para o ensino nos dias atuais, colocando no centro da questão a visão
histórico-social. Através desse ponto de vista, quando o aluno entra em sala
de aula não deixa do lado de fora todo o aprendizado que desenvolveu em instituições
não-oficiais (família, igreja, clube etc.), mas traz para a aula a sua
experiência de vida. Dessa forma, cada aluno constrói um entendimento próprio
do conteúdo trabalhado pelo professor, pois essas informações são “filtradas”
e “acomodadas” pelo conhecimento já existente. O aluno edifica seu próprio
conhecimento, e não o recebe, via transferência pelo professor como gostaria
os modelos liberais.
A educação nos dias atuais sofre
um impacto direto da crise da modernidade. As verdades tidas como eternas e
absolutas se dissolvem levando consigo a antiga estrutura de ensino e sua
inflexível relação professor-aluno. Foi Platão, ainda na Grécia Antiga, que,
deturpando o pensamento de Sócrates, rebaixou a opinião (doxa) ao campo das incertezas e consagrou à verdade o caráter
universal e atemporal. No rastro dessa tradição, o Iluminismo escolheu a
Ciência como grande portadora e fabricadora de verdades. Afloradas a partir
da racionalização do pensamento, as verdades deveriam guiar o homem a um
mundo melhor, de progresso infinito. Contudo, o desastre das duas bombas
nucleares ao final da Segunda Guerra, em 1945, talvez seja a maior prova
desse equívoco. O mundo ocidental passou então a questionar seus rumos, suas
certezas, passou a rever suas verdades.
Numa época chamada por muitos de
Pós-Moderna, a educação progressista, de perspectiva histórica-social, põe em
xeque também o paradigma da verdade. O professor, ou orientador educacional,
não é mais o transmissor de uma verdade instituída. Ele assume o dever de fazer
o aluno buscar suas próprias verdades, por meio da relação entre o conteúdo
apresentado e da experiência já adquirida extra-sala. Mais ainda, deve fazer
do aluno um questionador de suas certezas e saber que aquilo que se tem como
certo hoje pode ser revisto amanhã. A valorização da dúvida é uma exigência
da educação nos novos tempos.
A educação brasileira ainda
comporta distintas concepções que, somadas à parte dos agentes educacionais
despreparados, impede uma fisionomia definida do modelo educacional do país.
Não é raro encontrar numa mesma comunidade unidades de ensino em que a
proposta liberal e progressista rivalizem. A disjunção, ou especialização
fechada, é um exemplo de como o modelo tecnicista perpetua. Essa forma de
hiper-especialização proporciona a super concentração num dado campo
disciplinar, impedindo a percepção geral. Vê-se a arvore, mas não a floresta
que a envolve. Ela enfraquece a responsabilidade coletiva, uma vez que cada
pessoa responde por si e seu restrito campo. É uma inteligência míope. Outros
problemas se colocam: se os valores , assim como as verdades, não são
universais, a educação com seus valores embutidos não é algo universalmente
neutro. De outro modo, se os valores são valores de grupo (não-universais), a
educação pode ser um meio de imposição desses valores sobre um meio social
maior. A escola pode ser instrumento de dominação.
Como
desafios à educação brasileira na atualidade temos a busca por uma maior
participação social nas escolas, contribuindo toda a comunidade com seus
princípios individuais e afastando o perigo de ter a escola transformada em
meio de dominação. Outro desafio é flexibilizar as formas de aprendizado de
modo a inserir o maior número possível de indivíduos. A educação à distância
(EAD) vem contribuindo para essa mudança. Iniciada ainda durante a Era Vargas
a EAD proporcionava qualificação para o trabalho através de cursos por
correspondência. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso o número de
universidades ampliou consideravelmente e junto com elas a EAD. Flexibilidade
de horário e local são as vantagens desse formato de curso, que tentam
superar a inconveniência da ausência humana, impedindo, em parte, não só a
ajuda direta do professor, mas também aquela convivência entre alunos
salientada no início do texto.
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Revista Brasileira de Educação. Campinas. Edição setembro-dezembro 2003, n.24.
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