
RESUMO
A escola supervisiva tem de repensar as suas
práticas pedagógicas e alterá-las para que os alunos se sintam indivíduos
capazes de serem autónomos na sua complexa tarefa de aprender. A
consciencialização da importância da supervisão é uma meta a atingir, bem como
o papel que o professor tem em todo o processo.
PALAVRAS-CHAVE
Aluno, Escola, Supervisão, Escola Supervisiva e
Professor.
ABSTRACT
A escola supervisiva tem de repensar as suas
práticas pedagógicas e alterá-las para que os alunos se sintam indivíduos
capazes de serem autónomos na sua complexa tarefa de aprender. A
consciencialização da importância da supervisão é uma meta a atingir, bem como
o papel que o professor tem em todo o processo.
KEYWORDS
Supervision,
Supervised School, School, Student, and Teacher.
I. INTRODUÇÃO
De olhos postos num futuro incógnito, a
supervisão atravessa uma nova fase de mudança. Não é a primeira e não será a
última vez que, das dificuldades e das transformações, nascem novas oportunidades
e alterações. É tempo de acompanhar as novas ideologias, corrigir erros, rever
prioridades, reinventar fórmulas, superar problemas e evoluir. Com perseverança
e tenacidade, a supervisão já deu provas de conseguir mudar quando quis e foi
necessário. Alterou hábitos e culturas educativas, procurou soluções, inventou
novas formas. É mais fácil deixarmo-nos abalar pelo desânimo causado pela
insatisfação e relutância de mudar (causados por relatórios, estudos, novas
políticas ou opiniões) do que, numa primeira análise, tentarmos contrariar
costumes enraizados.
II. SUPERVISÃO:
CONCEITO
A supervisão está presente no nosso
quotidiano profissional e faz parte da nossa prática pedagógica. É um processo
de aprendizagem e desenvolvimento, não só na actividade lectiva, como também na
coordenação e organização de práticas, na troca de saberes entre colegas da
mesma área disciplinar ou de áreas curriculares diferentes – por exemplo, nas
reuniões de Departamento, de Conselho Pedagógico, de Área Disciplinar, de Equipas
Educativas, na Formação Inicial e Contínua…
Cada vez mais a investigação em educação se
direcciona para as práticas efectivas. Os investigadores procuram novas linhas,
no sentido de mudar práticas, abordagens e responder a novas exigências. É
fundamental que o professor, enquanto supervisor, se preocupe com processos de
ensino e aprendizagem, posturas e tomadas de posição na sala de aula. A tomada
de consciência do professor reflecte-se na sua atitude diante os alunos, na sua
função na sala de aula. Assim, a relação entre professor e alunos será tão mais
beneficiada quanto mais (Afonso, 2000, p.93): “se possam orientar actividades que tenham em conta as suas
necessidades, os seus interesses, as suas representações.”. Por sua vez,
Arends (2008, p.504) afirma:
A
mudança de papel nem sempre é fácil ao professor, pois acostumado a oferecer um
conteúdo por ele dominado, poderá demonstrar uma certa insegurança para operar
o computador, diante de uma língua estrangeira ou de uma nova informação na
rede.
Na década de oitenta do século passado, o
conceito de supervisão deixa de ser entendido apenas em sentido estrito, isto
é, passa a ser mais do que a supervisão pedagógica. Alarga os seus horizontes
para além da sala de aula, da formação inicial de professores e da avaliação de
desempenho. Entendia-se a supervisão como um
modo de trabalhar com professores ou alunos, organizar materiais e que tenham
como objectivo a sala de aula. (Cogan, 1973; Beach & Reinhartz, 1989)
O processo de supervisão ocorria da seguinte
forma:
FIGURA I: Fases do ciclo da supervisão, segundo Cogan
(1973)

FONTE: Alarcão (2008, p.27)
Mas a supervisão é também a escola, a
comunidade educativa, as estruturas educativas, …. A supervisão é uma actuação
de monitorização sistemática da prática pedagógica, sobretudo através de
procedimentos de reflexão e de experimentação e não como muitos receiam, um
policiamento de professores ou de alunos (Vieira, 1993; Rasco, 1999). O seu
objectivo deve ser a cooperação com os professores e não o julgamento sobre as
suas competências ou o seu trabalho. (Hoy, 1986)
Na opinião de Sá-Chaves (2000, p.75), a
supervisão é “entendida como um processo
de aprendizagem e de desenvolvimento do formando e do supervisor, podendo de
acordo com a natureza da interacção criada, ser facilitado ou inibido.”
Ainda mais abrangentemente, a supervisão
inclui a avaliação dos professores, o desenvolvimento de programas e/ ou
projectos, a função de liderança, a participação e o apoio aos variados
elementos da comunidade educativa, o diagnóstico e a resolução de problemas, a
gestão financeira, a regulamentação dos procedimentos disciplinares e segurança
escolar, a organização de actividades extra-curriculares, as relações
profissionais e a formação continua de pessoal docente e discente, (Alarcão,
2001; Oliveira, 2001; Oliveira – Formosinho, 2002b; Wiles & Bondi, 2000).
FIGURAII: Concepções e práticas de supervisão

FONTE: Alarcão (2008, p.53)
III. SUPERVISOR:
PAPEL E PERFIL
Hoje em dia, existem novas tendências
supervisivas que atribuem ao supervisor a função de líder de comunidades
aprendentes. Consideram que “tomou-se
consciência de que o desenvolvimento humano, individual e colectivo, é a pedra
de toque para o desenvolvimento organizacional” (Alarcão & Tavares,
2007, p.153), sendo imperativo redefinir a supervisão e as funções do
supervisor.
A
supervisão é aplicada ao docente e também se reflecte nos projectos que visam a
melhoria da aprendizagem, por exemplo, de alunos e professores. Uma melhoria e/
ou mudança implica que haja confrontação, significando que o educador se
exponha, o que não é muito frequente na nossa cultura educativa e formativa.
Mas se queremos promover a reflexão crítica sobre a aprendizagem dos nossos
alunos, teremos de nos expor perante eles, os encarregados de educação e os
restantes colegas. A propósito Sá-Chaves (2000, p.75) refere:
(…) o supervisor deve
procurar estar atento às necessidades formativas, às motivações, às capacidades
e competências profissionais do formando, por forma a adequar a sua intervenção
e comunicação, ajudando-o a progredir e a aceder a um saber, a um saber fazer e
a um saber ser, necessários a uma intervenção contextualizada e que só é
possível através de um saber pensar consciente, situado, partilhado.
Mesmo entendida em sentido lato, a supervisão
pode ser autónoma ou colaborativa. A primeira, deve ser aquela que todo o
docente aplica a si próprio, a que produz opções reflectidas e leva a um
crescimento enquanto profissional, permitindo a tomada de decisões e
consequentes acções; a segunda, a que dá origem à figura do supervisor, já que
a supervisão deve reflectir relações dinâmicas de aprendizagem e
desenvolvimento profissional.
Numa visão mais simplista, o supervisor é
aquele que tem experiência de ensino, é perspicaz, sensato e demonstra
perseverança. Tem de ser capaz de dinamizar, incentivar e preparar novas
práticas educativas; privilegiar a investigação – acção; acompanhar, formar e
interagir com todos os agentes educativos; colaborar em projectos e avaliações
institucionais; contribuir para a resolução de problemas da sua instituição.
(Alarcão, 2007).
Glickman (1985) refere o supervisor como
alguém que está atento, esclarece, encoraja, serve de exemplo, opina, negoceia,
orienta, condiciona, ajuda na resolução de situações surgidas e estabelece
prioridades e critérios.
O supervisor passa a ser educador –
investigador e educando – investigador. Deixa de ser o “bom” supervisor para ser supervisor eficaz. Palavras como “formação” e “mudança” pressupõem alterações, melhoramento e alargamento dos
horizontes. Mas a modificação tem de ser efectivada.
O papel do supervisor é de extrema
importância. Tendo em conta as variadíssimas alterações inerentes ao processo
de aprendizagem do aluno/formando, a existência de alguém que acompanhe tal
processo é um factor determinante. Citando Oliveira-Formosinho (2002a, p.73):
Reconhecendo a
complexidade da sala de aula, o trabalho dos professores é visto como algo que
ultrapassa o conhecimento do conteúdo. Os professores devem constantemente
reagir à mudança do cenário da sala de aula, baseando as suas decisões em
práticas pedagógicas de eficácia comprovada que aumentem a probabilidade de o
aluno aprender.
O supervisor surge como alguém que conduz, avalia
e aconselha. É, inclusivé, um suporte no que toca aos aspectos emocionais. O
seu papel é tal, que o supervisando o reconhece como sendo a “peça” fundamental
para o desenvolvimento das suas competências, conhecimentos e atitudes. Alarcão
(2008, p.72) reforça esta ideia conceptualizando o supervisor como “humanista, crítico – reflexivo, investigador
das suas próprias práticas”. Wallace (1994, p.116) defende que:
a more collaborative approach is likely to improve the
affective relationship between supervisor and trainee; also, through such an
approach, the supervisor can hope to foster the conditions for reflective
practice and the longer-term professional development of the trainee.
Estratégias pouco concisas, modelos de
formação ineficazes, parca definição de objectivos, currículos desadequados e
pouca acessibilidade a eficazes instrumentos de trabalho, levam a uma situação
de frustração por parte dos profissionais de ensino, o que se reflecte no
processo de supervisão, no supervisor e, consequentemente, no supervisando. É
premente a abordagem reflexiva, para que haja uma melhoria do processo de
supervisão e desenvolvimento profissional.
Elevar a capacidade de trabalho de
um profissional do ensino é, não só valorizar as aprendizagens, como também
melhorar as práticas pedagógicas. Destacar propostas, comentários,
considerações são factores que originam uma perseverança mais válida e que leva
a práticas pedagógicas significativas de avaliação e supervisão.
Sá-Correia (1996) foca três aspectos
essenciais para uma supervisão mais crítica:
a) mudança
de atitudes e representações dos supervisores e supervisandos, nomeadamente, na
explicitação de teoria e conteúdos e reflexão crítica sobre as práticas;
b) desenvolvimento
pessoal e profissional do supervisor relativamente a conhecimentos, capacidade
de reflexão e colaboração com os outros;
c) alterações
dos supervisandos no que diz respeito a atitudes, fontes de saber e estratégias
de aprendizagem.
a) Mas a mudança implica entendimento da
mesma. É necessário perceber como inovar e criar novas estratégias, pois não
podemos esquecer que, se por um lado, a cultura de mudança precisa de ser
dinâmica, por outro, deve ser criativa. (Fullan, 2007). Entenda-se o processo de mudança como
um procedimento em que: “ the goal is to develop a greater feel for
leading complex change, to develop a mind-set and action set that are
constantly cultivated and refined. There
are no shortcuts”. (Idem, p. 171)
b) O supervisor, que faz parte de uma escola
reflexiva, tem de ser capaz de dinamizar comunidades educativas, privilegiar a
resolução de problemas específicos da escola numa vertente de aprendizagem,
integrar e formar os novos elementos educativos, incentivar a auto e hetero
supervisão, colaborar no Projecto Educativo de Escola, criar e colaborar nos
momentos de auto e hetero avaliação, bem como aprender com os resultados
obtidos. (Alarcão, 2007).
c) Através das situações práticas, o
supervisando é capaz de reflectir, adaptar e ajustar, tornando-se mais versátil
para enfrentar as novas e diferentes situações surgidas. Ribeiro (2001,
pp.93-94) afirma:
(…) a valorização do
saber experimental de cada um para a construção de novos saberes e a
valorização dos contextos sociais e dos espaços de formação (…) a (re)
descoberta das potencialidades de investigar na acção e o exercício da reflexão
crítica sobre as práticas que fomentam a inovação e a (re) construção das
acções e, consequentemente, a construção de uma identidade profissional.
IV. ESCOLA
SUPERVISIVA
As escolas enquanto instituições têm, também,
de serem supervisivas. Baseiam-se, para além da legislação imposta, em
documentos dinâmicos: Plano Anual de Actividades, Regulamento Interno, Projecto
Educativo, ….
Esses documentos devem conter em si
os elementos que permitam dar à Escola um sentido de unidade, em que os
elementos da comunidade educativa se revejam, fazendo com que a acção
educativa, num determinado momento temporal, se oriente para a persecução
dessas finalidades.
A escola supervisiva tem como objectivo promover o trabalho de equipa;
centrar a sua acção educativa na aprendizagem dos alunos e dos professores;
promover a coordenação do processo de ensino e a harmonização das mensagens
socializantes; procurar facilitar a articulação horizontal e vertical dos
conteúdos e a integração dos saberes; adequar estratégias de ensino às
características dos alunos e professores explorando as suas motivações e
interesses.
E de que precisa a escola supervisiva? Precisa de atitudes
de colaboração, cooperação e compromisso, como alicerces de uma cultura de
responsabilidade partilhada por toda a comunidade educativa. Depende da
capacidade de todos para ultrapassar constrangimentos, mobilizar recursos e
vontades, congregar esforços e aceitar desafios.
A escola supervisiva deve: proporcionar um ambiente favorável à
educação destinada à aprendizagem e na qual alunos e professores possam
construir os seus conhecimentos de acordo com estilos individuais de
aprendizagem; garantir actividades pedagógicas inovadoras e desenvolver, nos
alunos e professores, a capacidade de pensar e expressar-se com clareza;
solucionar problemas e tomar decisões com responsabilidade.
Para que possa cumprir as metas a
que se propõe, a escola supervisiva
deve seguir uma cultura de diversidade e de participação em projectos que conduzam
à formação dos diferentes elementos que constituem a comunidade educativa. Para
tal deve:
a) promover
o desenvolvimento global de competências para que haja uma maior autonomia dos
alunos;
b) promover
o sucesso educativo;
c) aumentar
a utilização das novas tecnologias no processo de ensino – aprendizagem;
d) aumentar
a qualidade das práticas educativas e organizacionais;
e) promover
actividades culturais, desportivas e artísticas para que a formação dos alunos
tenha um aspecto global;
f) promover
a educação para a saúde e para a defesa do ambiente;
g) melhorar
a qualidade do desempenho de professores e pessoal não docente;
h) fomentar
a relação entre a Escola e a Família fazendo com que haja um maior
envolvimento e participação dos Encarregados de Educação;
i) solicitar
uma maior relação e colaboração dos diferentes elementos da comunidade
educativa;
V. CONCLUSÃO
Todas as escolas têm características e
potencialidades únicas e próprias. Terão de ser capazes de as utilizar e
explorar, de forma a tornar o processo de ensino – aprendizagem válido e
efectivo. A supervisão é, sem qualquer dúvida, uma maneira de o fazer e de
tornar as escolas eficazes.
Um processo supervisivo aplicado aos
supervisores, consegue inferir, mudar atitudes e promover novas ou diferentes
características nos vários intervenientes do processo educativo. É a base do
sentimento reflexivo.
Como menciona Alarcão (2008, p.64):
A
qualidade da supervisão (…) está relacionada com a capacidade para gerar
dinâmicas e processos de crescimento profissionais centrados nos próprios
alunos, operacionalizados através de uma atitude reflexiva, questionadora e
analítica da acção docente, perspectivada como fonte de conhecimento,
devidamente sustentada pelo conhecimento teórico em cada aluno.
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* Doutoranda da Universidade Lusófona. Doutoramento em Educação. Orientada
pela Prof. Drª Maria José Sá-Correia.