
DIFICULDADES DE LEITURA E ESCRITA
EM UMA TURMA DE 5ª SÉRIE
DO ENSINO FUNDAMENTAL
Priscila Batista dos Santos e Sirlene Ramos Maciel*
RESUMO
O presente artigo analisa as dificuldades
de leitura e escrita de alunos, considerando que estas se configuram como uma
das principais queixas dos professores e delimitam as práticas vivenciadas no
âmbito escolar. A partir de um embasamento teórico com destaque às concepções
de leitura, escrita e letramento realizou-se um projeto pedagógico cujo
objetivo foi incentivar a leitura e a escrita, possibilitando percepções
diferenciadas sobre estas práticas. Além disso, situa o papel dos
profissionais da escola diante dessas dificuldades.
PALAVRAS-CHAVE
Dificuldades de Aprendizagem, Escrita, Leitura e Supervisão
Pedagógica.
INTRODUÇÃO
Este artigo analisa as dificuldades de
leitura e escrita de alunos de uma escola da rede municipal da cidade de
Lagoa Santa. Muitos dos alunos têm na escola a única fonte de incentivo para
ler e escrever, sendo necessário, sobretudo que estas sejam práticas
atraentes e dinâmicas. É nesse sentido que foi proposta uma intervenção cujo
projeto foi batizado “Todos podem voar”, com o intuito principal de estimular
o gosto pela leitura e a prática da escrita.
Esses alunos encontram-se em uma escola que
administra o ensino matutino para a 5ª a 8ª séries, de forma seriada.
Trata-se de uma instituição com aproximadamente 650 alunos nesse turno
distribuídos em 18 turmas, em média com 36 alunos cada. A supervisão
pedagógica é exercida por duas profissionais formadas em pedagogia.
É importante ressaltar que a escola agrupa
os alunos com critérios de aprendizagem, com o objetivo de tornar as turmas
mais homogêneas. Dessa forma, a turma de 5ª série em questão é classificada
pela supervisão pedagógica como a que possui mais dificuldades de
aprendizagem em relação às outras quatro turmas da mesma série.
Uma das principais queixas dos professores
é que os alunos da turma possuem sérias dificuldades de leitura e escrita,
havendo alunos semi-alfabetizados e iletrados. Essa queixa é recorrente nas
falas dos professores das disciplinas ministradas (Ciências, Educação Física,
Ensino Religioso, Geografia, História, Matemática e Português) e tornou-se um
dos principais problemas a serem resolvidos por essa escola.
É importante ainda destacar que a escola
passou recentemente pela mudança de seriação para os ciclos e voltou para a
primeira opção. Isto porque, devido a falta de esclarecimentos sobre o que,
por quê e como se implantaria esta organização de ciclos, espalhou-se no
imaginário comum que o aluno não seria reprovado, o que resultou em aprovação
de alunos para ciclos mais avançados com grandes dificuldades em leitura e
escrita. Portanto, essas dificuldades não estão restritas aos alunos da 5ª
série, há, inclusive, alunos na 8ª série com os mesmos problemas.
Para a análise da turma da 5ª série
optou-se pela metodologia pesquisa-ação ou pesquisa participante. De acordo
com Barbier (2002) a pesquisa-ação é uma pesquisa mais participativa, pois os
grupos envolvidos interagem entre si. O pesquisador tenta diagnosticar e
resolver um problema, que nesse caso é específico em uma situação específica.
O pesquisador tenta interferir no problema investigado, ou seja, o
pesquisador participa na transformação da realidade.
A abordagem da
pesquisa-ação tem uma base empírica e não pode ser generalizada. É importante
ressaltar que toda realidade é complexa e impossível de ser contemplada em
sua totalidade, segundo Gatti (2002), no caso específico de pesquisa em
educação, esta envolve diversos fatores próprios de mudanças e variações,
pois quando o “objeto” é o ser humano as questões são inúmeras e
multifacetadas.
Foi então por meio da
pesquisa-ação que buscou-se compreender a complexidade e a particularidade
dos processos educativos e dos atores envolvidos. Em um primeiro momento foi
realizado um diagnóstico através de observações em sala de aula, anotações,
diálogos com professores, análise de documentos da escola e avaliações dos
alunos. Neste processo foi construído um esboço do problema e da proposta de
intervenção. Esta metodologia empregada possibilitaria analisar, refletir,
observar e intervir sobre o processo de ensino/aprendizagem com foco nas
dificuldades apresentadas pelos alunos nas habilidades de leitura e escrita.
As análises aqui propostas estão apoiadas
nos conceitos de linguagem, de Vieira e Costa Val (2005). De acordo com estas
autoras, a linguagem é como uma atividade social, como um espaço de interação
entre sujeitos, em um determinado contexto social de comunicação. Assim
percebe-se que a língua não é algo pronto e acabado, mas algo que sofre
influência da atividade dos falantes, muda no tempo, no espaço e na
hierarquia social.
REFERENCIAL
TEÓRICO: CONCEPÇÕES DE LEITURA, ESCRITA E LETRAMENTO
Sabe-se que existem diferentes formas de
conceber a linguagem, e que a maneira que um professor a concebe molda seu
jeito de ensinar e conseqüentemente suas aulas, inclusive em relação à
leitura e escrita. Em relação à leitura, atualmente, esta se destaca no mundo
como uma habilidade fundamental, de suma importância, e que o professor
assume papel norteador na construção desse processo. A leitura pode assim ser
definida, como um processo dinâmico e dialético.
De acordo com Cafieiro (2005), a leitura é
definida a partir da concepção que a considera como processo de construção de
sentidos. Portanto, a leitura não é apenas a decodificação de signos da
linguagem, mas um processo de construção de sentidos realizado por um leitor
que é sócio-histórico-cultural há uma interação do leitor com o texto, com o
autor e com o conhecimento que cada um traz sobre o assunto.
Analisando o processo de produção escrita a
partir da concepção de linguagem apresentada, pode-se considerá-lo, de acordo
com Brakling (2005), como uma prática social, uma vez que em várias
circunstâncias da vida os textos são produzidos para diferentes
interlocutores, com distintas finalidades, organizados nos mais diversos
gêneros, para circularem em variados espaços sociais.
De maneira semelhante, Costa Val (1998)
afirma que a produção de textos escritos deve-se inserir num processo de
interlocução, o que significa que o escritor deve se assumir como um locutor
que tem objetivo para escrever algo a um interlocutor, numa dada situação de
interação verbal.
Porém, nas últimas décadas um outro
conceito passa a ser adotado com mais freqüência para definir a aquisição
efetiva da leitura e da produção escrita em nossa sociedade. Este é o
letramento, pois de acordo com Soares (1999) letrar é mais que alfabetizar, é
ensinar a ler e escrever dentro de um contexto onde a escrita e a leitura
tenham sentido e façam parte da vida do aluno. De acordo com Soares, a
prática de leitura e escrita deve possibilitar que o aluno possua condições
de utilizar a língua de forma eficiente e crítica, de acordo com as diversas
situações sociais em que se insere, além de propiciar ao aluno uma reflexão
sobre as relações humanas. Deve possibilitar também, a formação de um leitor
capaz de compreender e atribuir significados ao que lê, e que consiga a partir
disso, estabelecer relações com outros textos lidos.
AS
DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM DE LEITURA E ESCRITA
Para Batista (2005) é importante que os alunos tenham
contato com os mais variados textos, desde os primeiros anos de
escolarização, para que assim tenham familiaridades com os mesmos. Os
professores devem criar um ambiente que promova o contato e o gosto pela
leitura pelos alunos, mesmo que estes ainda não saibam ler. Diante desta
constatação, faz-se necessário repensar a prática em sala de aula. Precisa-se
buscar o novo, de forma consciente e conhecedora da realidade do aprender a
ler e escrever.
Batista
(2005) então propõe que o professor observe como o aluno lê e que utilize,
para isso, a leitura em voz alta. Para o autor, nessa atividade, o professor
deve pedir que cada aluno leia individualmente em voz alta para pontuar suas
inadequações em leitura, para posterior interferência.
É
inevitável que a leitura e escrita sejam escolarizadas, mas a forma como isso
tem se dado deve ser analisada, pois muitas vezes, estas se constituem em
atividades mecânicas e obrigatórias, não possuindo sentido para os alunos.
Segundo Paz (2000), é importante que o professor ofereça leituras que
provoquem estranhamentos, mas como se fossem de fácil leitura e que proporcionem
prazer e não tenham o sentido de obrigação. O professor pode, inclusive,
modificar a linguagem de um texto para uma forma mais simples, se tratar de
um texto que possua uma linguagem mais requintada. Para a autora, os alunos
devem ser estimulados a discutir o (s) texto (s) lido (s), trocar idéias e
argumento, refletir, compará-los, analisar semelhanças e diferenças, e
relacioná-lo (s) com suas próprias vidas. Segundo a autora, o professor tem o
papel de contribuir para que o aluno goste da leitura, para isso é necessário
que ele contextualize as leituras, interaja com os alunos e estimule que
estes participem da aula de forma ativa. Da mesma forma, Lima (2005),
ressalta que a leitura deve ser a mais atraente possível, pois a primeira
etapa para a formação de leitores é a sedução, isto é, que o leitor se sinta
atraído pelo texto.
Enfim, como ressalta Soares (2005), a
aquisição da tecnologia de ler e escrever não possui valor se não vier
acompanhada do acesso facilitado ao material escrito e incentivo a leitura e
escrita. Sendo assim, Bento (2003) ressalta que, na escola, o processo de
ensino e aprendizagem da leitura deve levar a criança à autonomia de suas
próprias escolhas em relação às informações visuais e a ser um leitor e
escritor proeficiente, ou seja, capaz de ler e escrever e fazer o uso social
do que aprendeu.
ALUNOS
DA 5ª SÉRIE 1: UMA CONSTATAÇÃO
O diálogo com os
professores da turma escolhida e com a supervisão pedagógica, além da análise
de documentos e de avaliações, permitiu que se apreendesse um pouco daquela
realidade.
A 5ª série foi dividida em cinco turmas, de
alunos advindos do 2º ciclo (administrado no turno da tarde) da própria
escola e de bairros distribuídos pela cidade, inclusive longínquos, de pais
que não respeitaram o zoneamento. Essas turmas foram classificadas pela
numeração de 1 a
5, sendo a 1 considerada com alunos com maiores dificuldades e a 5 que
apresenta melhores índices de aprendizagem.
A turma escolhida para
este trabalho era composta por um grupo heterogêneo de crianças e
adolescentes, na faixa etária de 10
a 16 anos, sendo 14 meninas e 18 meninos, totalizando
32 alunos.
Embora o nível econômico
dos alunos da escola seja diversificado, nota-se que os alunos da turma em
questão são em sua maioria muito carentes social e economicamente.
Os alunos ao serem
agrupados de forma mais homogênea segundo critérios de aprendizagem acabou
por caracterizar uma turma que possui alunos com maior defasagem de idade.
Assim, há alunos até com 16 anos na 5ª série que apresentam anos de
repetência escolar, há, inclusive, alunos diagnosticados como portadores de
necessidades especiais que, entretanto, não possuem nenhum acompanhamento
dentro e fora da escola.
Segundo os Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCNs) a 5ª série apresenta, juntamente com a 1ª série, os mais
altos níveis de fracasso escolar. Sendo que na 1ª série as dificuldades
centram-se na dificuldade de alfabetização e na 5ª porque muitos dos alunos
não dominam os padrões da língua escrita o suficiente para obterem sucesso escolar.
Não é possível “culpar” o
universo individual desses alunos como o único motivo por esse fracasso. Há
diversos fatores que interferem, tais como a transição da infância para a
puberdade, fatores extra-escolares (como condições sociais e econômicas) e
intra-escolares (ou uma prática pedagógica inadequada).
Soares (2002), a partir da
perspectiva social analisa as relações entre linguagem e escola, buscando
compreender o problema da educação das classes populares no Brasil. Segundo a
autora, a escola tem se mostrado ineficaz em relação à democratização do
ensino, devido a vários aspectos e principalmente o fator linguagem. Isso
porque a linguagem da escola corresponde à da classe privilegiada e isso é
uma das principais causas do fracasso escolar.
Sem apontar respostas para os motivos
desses fracassos e muito menos soluções mágicas; é necessário, sobretudo,
pensar sobre essas dificuldades que levaram os alunos a serem reprovados
tantas vezes e por que, mesmo com sérias dificuldades de aprendizagem, inclusive
de leitura e escrita, alguns foram aprovados para as séries seguintes sem
contar com nenhuma intervenção sistemática.
É correto afirmar que parte desses alunos
veio de uma organização por ciclos, que permite maior autonomia do professor
e a não-repetência do aluno. Dentro da concepção de ciclos a não-repetência é
fruto de uma avaliação mais ampla de todos os professores sobre o aluno,
considerando a importância da interação entre pares e, principalmente, da
aquisição de diversas outras competências, como afetividade e sociabilidade.
Porém, essa concepção dentro da escola foi realizada de forma equivocada,
pois parte dos alunos da turma da 5ª série 1 possuem sérias dificuldades de
aprendizagem e não respondem as exigências formais dessa série. Contudo, não
pretende-se aqui reforçar a perspectiva de estes alunos fiquem retidos por
demasiado tempo para que sintam diferentes da turma e aquém dela, pois
levaria, em muitos casos, a desistência escolar.
É imprescindível que esses alunos recebam
um olhar diferenciado, que considere suas dificuldades e trabalhe sobre elas,
no sentido de fazer com que eles se percebam como capazes, o currículo
diferenciado poderia favorecer esta compreensão. Segundo Paro (2000), cada
indivíduo lida de forma única com a educação, por isso a importância da
qualidade do processo educativo na escola rumo a uma formação socialmente
relevante. Isto é, a escola deve ser um ambiente em que o aluno tenha prazer
em estar, pois querer aprender é o primeiro passo para que o processo de
ensino e aprendizagem seja efetivo.
AS
INTERVENÇÕES: DESENVOLVIMENTO, AVALIAÇÃO E RESULTADOS
Inicialmente,
foi realizado um momento diagnóstico através da observação com o intuito de
apreender como os alunos se envolvem nas aulas administradas por seus
professores. Para tanto, foram observadas quatro aulas em dias alternados,
sendo de Matemática, Inglês, Ciências e Geografia, sendo duas professoras e
dois professores, respectivamente.
A idéia inicial era a de
que o comportamento e nível de envolvimento dos alunos se modificariam
conforme o(a) professor(a) e a disciplina e, inclusive, com a presença das
pesquisadoras. Entretanto, não foram notadas grandes mudanças e verificou-se
que os alunos ficam agitados quando a aula é expositiva, conversam muito e
até circulam pela sala. Já nos momentos em que a realização de uma atividade
escrita é exigida, muitos se tornam mais concentrados para realizar o que foi
pedido, há outros, porém, que simplesmente não fazem a atividade e continuam
a conversar, mesmo que os professores “chamem a atenção” muitas vezes.
Quando
a proposta era copiar do quadro, a quase totalidade dos alunos se prontificou
a fazê-lo, revelando, porém que se tratava de uma ação mecânica, pois
praticavam muitos erros nessa cópia. Em relação às atividades “para casa”,
eram cinco dos 32 alunos que o realizavam geralmente, e poucos se
prontificavam a responder oralmente às perguntas realizadas pelos
professores.
Alguns
dos alunos mais velhos da turma (com 14,15 e 16 anos) se destacaram, alguns
por serem “quietos” demais e outros pelo oposto, muitas vezes inclusive
realizando ações agressivas, como bater no colega.
Poucos
foram os alunos que demonstraram interesse nas aulas, o que fica aparente é
uma apatia geral em relação às disciplinas e muita conversa e agitação.
Interrogados, os próprios alunos alegaram falta de interesse pelas aulas e
que algumas atividades são realizadas apenas se valerem pontos. É claro que
essa resposta não expressa a opinião da totalidade dos alunos, mas de uma
parcela significativa, o que já a torna preocupante.
Todos
os(as) sete professores(as) que administram aulas para essa turma afirmam que
lidam com os mesmos problemas, principalmente sérias dificuldades de leitura
e escrita e, consequentemente, falta de interesse dos alunos.
As
dificuldades de leitura e escrita de determinadas turmas é a principal queixa
dos professores que recorrem à supervisão pedagógica em busca de uma solução.
Portanto, em consonância com os interesses e demandas da supervisão
pedagógica da escola, dos professores e com o trabalho já desenvolvido pela
professora de Língua Portuguesa, foi desenvolvida a proposta de intervenção
intitulada “Todos podem voar”.
Essa
proposta trata-se de um conjunto de sete intervenções realizadas
dialogicamente com a professora de Língua Portuguesa e com a supervisora
pedagógica. Não havia a pretensão de solucionar os problemas relacionados à
leitura e a escrita, pois se tratam de construções que se efetivam aos
poucos, a medida que o aluno lê e escreve mais, mas abrir espaço para se pensar
sobre a questão e soluções (que requerem um prazo maior) que poderão ser
realizadas pela escola envolvendo diversos sujeitos, como professores de
outras disciplinas, bibliotecário e a própria família do aluno.
Para
incentivar o gosto pela leitura foram propostas, inicialmente, a contação da
história “Peter Pan”, peça de autoria do romancista e dramaturgo inglês James
Matthew Barrie (1860-1937), que sofreu diversas adaptações para livros e
filmes. Além de diversos pequenos contos, com intuito de estimular a
criatividade e a concentração.
No que se refere à escrita acredita-se que
sua prática permite que os alunos escrevam mais e melhor com a utilização da
língua escrita segundo seus padrões. Além disso, o aluno deve perceber que o
uso adequado da língua deve ocorrer em função de seus diferentes contextos de
uso social, para tanto foi proposto a escrita de cartas para os “meninos
perdidos” da ilha em que mora o personagem Peter Pan, sendo que estas cartas
foram realmente respondidas por voluntários.
Além
da contação de história do “Peter Pan” e da produção de cartas, foram
realizadas diversas outras atividades, inclusive de interpretação de textos,
gramática e ortografia entre outras que trouxeram questões e temáticas
variadas. Outro destaque é a produção escrita de histórias sempre após a
contação ou leitura de pequenos contos.
Foram realizadas dinâmicas com o objetivo
de envolver os alunos, mesmo os mais desmotivados, e integrar a turma. A
primeira dinâmica foi recebida com estranhamento e com muita balbúrdia,
deixando evidente que os alunos não estão acostumados a realizarem atividades
desse tipo. A proposta de retirarem as carteiras do lugar e fazerem um
círculo no chão demandou muito mais tempo do que necessário. Porém, notaram
que o tempo desperdiçado só atrapalhou o andamento da dinâmica e na próxima,
mostraram-se mais disciplinados e menos agitados.
Quanto à atividade de escrita, a avaliação
se deu pela criatividade, coerência e coesão textuais e no que se refere ao
estímulo ao gosto pela leitura, observou-se a capacidade de concentração e
interesse pelas histórias, contos e etc. Muitos dos alunos apresentavam-se
concentrados na hora da história e a cada encontro já queriam saber, de
início, o porquê daquela aula ser “diferente” das outras.
A leitura foi apresentada como um momento
de prazer, em que foram utilizadas estratégias de leitura como pausa
protocolada. Nesses momentos os alunos demonstraram curiosidade em saber o
que aconteceria no momento seguinte e como terminaria a história. Não faltou,
também, alunos que já sabiam o que ia acontecer contarem o final, tendo
reclamações dos colegas por estragarem a surpresa. Os momentos de leitura nos
surpreenderam pela atenção dos alunos, até os mais agitados permaneceram
atentos.
Pode-se afirmar, com certeza, que a
produção de cartas para os meninos perdidos da Terra do Nunca foi o momento
máximo das intervenções. Muitos alunos, ao escreverem pela primeira vez uma
carta, estavam com dificuldades de fazê-lo e desacreditados de que seriam
respondidos. Porém, com auxílio, algumas vezes individualmente, todos os
alunos escreveram as cartas e se mostraram ansiosos e entusiasmados com as
respostas. E cada carta recebida, sentiam-se mais estimulados a saber mais de
seus correspondentes misteriosos e, em conseqüência, as cartas se tornaram
mais longas e ricas.
Percebeu-se que a linguagem escrita esteve
fortemente marcada pelo discurso oral, como “muinto” em vez de “muito”,
“cual” em vez de “qual” fazendo com que muitas palavras não fossem entendidas
por nós. Por isso e por outros motivos de coerência, foi trabalhada a
releitura com os alunos, para que eles mesmos conseguissem ler o que
escreveram depois de determinado tempo (aproximadamente uma semana). Após
perceberem que eles mesmos estavam tendo dificuldades em entender o que
tinham escrito, mostraram-se mais atentos em escrever e compreenderam a
importância de praticar a releitura logo após a produção escrita.
Houve certa resistência quando a proposta
era de livre escrita, como inventar um final para a história ouvida até a
metade. Muitos alunos alegaram que não tinham idéias para colocar no papel.
Aos poucos e através da história do Peter Pan, ficou evidente que o uso da
imaginação é totalmente livre, que em uma história pode haver piratas,
índios, sereias e o que mais o escritor quiser. Através desse estímulo,
muitos dos alunos começaram a perceber o quanto pode ser prazeroso escrever
um final surpreendente ou um final engraçado, para fazer com que os colegas
riam.
Até nos momentos de trabalhar a gramática,
temível por muitos dos alunos tornou-se uma atividade interessante e
divertida com a brincadeira “batata quente”. Já a atividade “telefone sem
fio” consistia na reprodução oral do que foi lido e entendido pelo colega,
nesta os alunos perceberam como pode ser divertido e enriquecedor interpretar
textos e reproduzi-los oralmente.
Talvez seja inevitável escolarizar a
leitura, porém é possível criar momentos em que os alunos sejam estimulados a
ler por prazer, ou escrever uma história interessante para os colegas ouvirem
simplesmente por diversão.
Os alunos não foram avaliados por notas ou
conceitos, pois se trata de um processo plural que envolve não apenas uma
“evolução”, mas uma construção que se efetiva aos poucos e diariamente na
medida em que os alunos lêem e escrevem mais, se sentindo mais atraídos por
essas práticas. Dessa forma, os alunos puderam aprender que a leitura e
escrita não se prende aos livros didáticos e não serve apenas para obter
pontos.
CONCLUSÃO
O trabalho desenvolvido na escola deve
sempre ser realizado considerando o contexto social, a trajetória de vida de
seus alunos, sem perder de foco os objetivos traçados ao longo do ano. No que
se refere à leitura e escrita, este ensino deve possibilitar ao aluno fazer o
uso reflexivo da língua, ou seja, deve levar o aluno a pensar e refletir
sobre os conhecimentos que estão sendo transmitidos, não apenas levando-o a
memorizar regras e normas gramaticais, mas fazendo-o compreender as
diferentes formas de se comunicar.
É importante ressaltar que o aluno somente
aprenderá a escrever, escrevendo, aprenderá a ler, lendo. Quanto mais se
utiliza dessas práticas, mais suas habilidades poderão ser ampliadas. O
professor tem um papel determinante neste processo, uma vez que será o mesmo
que orientará os alunos para a compreensão da produção escrita,
apresentando-lhes a heterogeneidade de textos e usos existentes em nossa
sociedade.
O professor encontra-se em um espaço
privilegiado para o desenvolvimento e a aprendizagem da leitura do aluno,
pois é na escola que se intensifica (para a maioria dos alunos) a relação com
a leitura e a escrita. Sendo assim, o professor deve agir no sentido de
estimular a prática e o gosto pela leitura, além de fazer com que o aluno
reflita sobre o que lê de forma crítica e contextualizada. É necessário
destacar que quando refere-se ao “professor”, fala-se não apenas do professor
de português, pois a leitura se constitui em uma tarefa interdisciplinar, de
todo o âmbito escolar.
O supervisor pedagógico ao atuar ao lado do
professor, auxiliando-o a estabelecer objetivos e finalidades para o trabalho
com o aluno, já está contribuindo para que o estudante utilize estas práticas
de acordo com sua função social. Neste sentido, o trabalho realizado enfatiza
aquilo que foi discutido ao longo do artigo, de que saber ler e escrever é
muito mais do que aquisição da leitura e escrita, significa ler o mundo, para
entendê-lo, para atribuir sentido a ele através de discussões e reflexões. O
papel da supervisão pedagógica e do professor
Para
Kramer (1995), o supervisor pedagógico deve servir de apoio para a ação dos
professores e isso é essencial para que estes reflitam sobre a própria
prática, realizando uma análise coletiva e crítica do ensino, reconhecendo
muitas vezes suas limitações. Apoiada em idéias de Schön, Monteiro (2001),
afirma que a reflexão dos professores sobre a sua prática, leva-os a
transformarem sua ação, viabilizando um ensino onde os conhecimentos
ensinados fazem parte do contexto e da vida cotidiana dos alunos. Ao analisar
o processo de ensino-aprendizagem ao lado dos professores, a supervisão
escolar contribui para que questões referentes à leitura, à escrita e
principalmente ao letramento sejam evidenciadas mediante diálogos e trocas de
experiências. Neste sentido, a orientação e o planejamento de novas ações
pelo supervisor auxiliam o desenvolvimento dos alunos, além de possibilitar a
parceria entre os professores e supervisão, já que propõe e se posiciona
acerca dos objetivos do conjunto.
A supervisão pedagógica pode e deve atuar no
sentido de fazer com que todos os professores (não somente os de Língua
Portuguesa) se conscientizem da importância e utilizem em sua prática textos
atraentes, contextualizados e dos mais diversos tipos. Cafieiro (2005) afirma
que cabe ao professor utilizar, em sua prática, os mais diversos gêneros,
principalmente os que fazem parte do cotidiano dos alunos, de modo que estes
compreendam a dimensão social do texto, sua finalidade e seus objetivos e
utilize atividades direcionadas para que os alunos percebam a importância
destes processos. A autora discorre, ainda, sobre algumas atividades que
podem ser utilizadas para esse fim, que são a fixação de objetivos e
estratégias necessárias para a compreensão do texto e que permitem a formação
de leitores e escritores proficientes.
Cabe ainda, a
todos os profissionais da educação, estimular as práticas de maneira que os
alunos não a vejam apenas como uma “imposição da escola”, mas sim como uma
prática que pode e deve ser prazerosa, além de extremamente útil ao longo de
suas vidas, dentro e fora da escola.
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