PROMOÇÃO DA SAÚDE E ANTROPOSOFIA:

NOVOS SABERES E PRÁTICA

Sílvia Lígia Svezzia* e Kátia Ferreira dos Santos**

 

“Não ensine a seu filho

que as estrelas

não são do tamanho que parecem ter:

maiores do que a terra!

São lâmpadas

que os anjos acendem todos os dias

assim que o sol escurecer...

Não diga a seu filho

que as asas dos anjos

só existem na imaginação

já vi meu anjo em sonho

e posso jurar

que ele tem asas claras

que até parecem feitas de luz

Não encha a cabeça do seu filho

Ensinando-lhe hipóteses precárias

Que amanhã de nada servirão

Povoe de beleza

O olhar inocente de seu filho

Dê-lhe uma provisão de bondade

Que chegue para a marcha da vida.

Infunda-lhe na alma

O amor de Deus

- e tudo o mais, por acréscimo terá.

Dom Helder Câmara, Minha Pedagogia.

RESUMO

Esse trabalho tem como objetivos analisar a proposta de uma instituição que oferece suporte educacional com recursos de pedagogia antroposófica (ou waldorf) para alunos e munícipes da cidade de São Paulo portadores de necessidades especiais e sistematizar questões e práticas efetuadas no âmbito das políticas públicas de saúde denominadas promoção da saúde e escola promotora de saúde. É uma pesquisa em ação caracterizada como um estudo de caso, as técnicas combinadas utilizadas foram análise documental e observação participativa. A análise do material foi de forma qualitativa emergindo as seguintes categorias: Sistema de rede de parcerias e Tema transversal Saúde. As parcerias foram caracterizadas nas formas intersetoriais e intra-setorial. Na parceria intersetorial há duas modalidades, as formais (escola waldorf, SME, SMS) e informais, corpo de voluntariado com atividades pontuais. Na parceria intrasetorial há com os profissionais-voluntários com inserção processual (em sua maioria) e com os pais de alunos, baseada na preocupação com o cuidado no momento. No tema transversal Saúde foram observados e sistematizados os seguintes “temas geradores”: alimentação assistida e prevenção da disfagia, saúde bucal, nutrição e segurança alimentar, oficina dos sons e saúde vocal, primeiros socorros e acompanhamento médico. Acreditamos que, embora a instituição não tenha consciência, sua prática pedagógica e seu suporte teórico são ações promocionais da saúde. Pois, a partir de sua concepção de Homem, abarca a visão de saúde de forma ampla, integrando os aspectos biopsicossociais. Acreditamos que a instituição por ser de caráter educacional, pode-se almejar na construção de práticas de uma escola promotora de saúde e tem como desafio, a transformação da tarefa educacional na co-responsabilidade entre pais e educadores. E, sugerimos a participação dos pais de forma que possam se comprometer com os princípios norteadores da instituição e na formação de agentes multiplicadores na promoção e educação em saúde.

PALAVRAS-CHAVE

Antroposofia, Educação em Saúde, Educação Especial/Métodos, Organização-não-governamental/legislação & jurisprudência e Promoção da Saúde.

 

KEYWORDS

Anthroposophy, Education, Health Promotion, Health Education, Non Governmental Organization/legislation & jurisprudence, and Special/methods

 

INTRODUÇÃO

É de grande importância a articulação entre estado e sociedade civil na organização de espaços de participação social relacionados à saúde em torno de projetos de interesse coletivo tornando as comunidades como locais de estratégia de promoção de saúde dos cidadãos. Podemos conceituar Promoção da Saúde como processo de capacitação para atuar na melhoria da qualidade de vida e da saúde.

Para isso as organizações-não-governametais (Ongs) têm realizado uma grande contribuição para promoção de saúde em comunidades carentes, pois têm uma larga experiência há décadas em vários países na representação das necessidades e prioridades dessas comunidades. O poder público é o agente repassador e as Ongs são os executores do serviço. Há outras fontes financeiras como a comercialização de material realizado pela própria comunidade e de doações, prevalecendo uma lógica solidária e de responsabilidade social. Como também há formas plurais de trabalho: assalariado (geralmente integrantes da comunidade) e voluntários (AZEVEDO, 1999).

As instituições antroposóficas em sua grande maioria são filantrópicas, sem fins lucrativos, embasadas teoricamente pela Antroposofia, fundado e estruturado por Rudolf Steiner (1861-1925). Steiner define como ciência do Cosmo, tendo como ponto de apoio o homem. Para Steiner o planeta Terra forma parte de todo o cosmo e da mesma maneira que o homem está integrado em um mesmo plano de criação e evolução divino espiritual. A Antroposofia procede cientificamente pela observação, descrição e interpretação dos fatos, contribuindo com a pedagogia, medicina, artes, ciências naturais e agricultura (LANZ, 1997). 

Semelhante o que ocorre com a Homeopatia, o homem é compreendido como um ser plurudimensional. Enquanto a Homeopatia considera uma força vital responsável pelo equilíbrio entre a saúde e a doença, a Antroposofia entende o homem como um ser físico-animico-espiritual, portador de mais três outros corpos sutis (PINHO, 2005). Mas para LIEVEGOED (2002) não se pode conceber o homem de forma dualista entre as matérias denso-física e as sutis, mas de forma integrada, ou seja, uma concepção monista entre corpo-alma-espírito.  PASSERINI (2004, p. 93) conceitua o homem como cidadão de três mundos:

Portanto, como cidadãos de três mundos distintos  - o físico, o anímico e o espiritual -, pertencemos e percebemos o mundo físico em nosso corpo, construímos um mundo singular, multicolorido com nossos sentimentos, em nossa alma, alcançamos a essência das coisas por meio do nosso pensamento, pelo espírito.

Assim, tanto a Homeopatia, como a Antroposofia segundo LUZ (2003) opera no paradigma centrado na Saúde, incentivando a existência de cidadãos saudáveis, autônomos perante seu processo de adoecimento, tornando um agente de cura de si mesmo.

Para a política pública Promoção da Saúde, a saúde é fruto do dia-a-dia das pessoas, incluindo trabalho, habitação, alimentação, educação, lazer e com o meio ambiente, sua concepção de saúde também inclui a capacidade de lutar e exigir por essa possibilidade, ou seja, o processo saúde-doença é visto como sócio-histórico em suas dimensões biopsicossocial.

As ações de promoção da saúde concretizam-se em diversos espaços e órgãos definidores de políticas, sobretudo nos espaços sociais onde vivem as pessoas. As cidades, os ambientes de trabalho e as escolas são os locais onde essas ações têm sido propostas, procurando-se fortalecer a ação e o protagonismo do nível local, incentivando a intersetorialidade e a participação social (BÓGUS, 2002).

As escolas aparecem, então, como um excelente cenário de caráter formal, vital, gerador de autonomia, participação crítica e criatividade para a promoção da saúde, já que a mesma, no âmbito escolar, parte de uma visão integral, multidisciplinar do ser humano, que considera as pessoas em seu contexto familiar, comunitário e social (IERVOLINO, 2000).

A pedagogia antroposófica trabalha com fases de desenvolvimento em períodos de sete anos com suas características diferentes. No primeiro setênio, principalmente nos três primeiros anos, a criança está entregue ao mundo, as impressões do ambiente fazem com que a criança imita. Ela imita tanto gestos externos, mas os internos das pessoas que povoam seu entorno. É um estado que não conhece defesa e crítica, mas confiança (IGNÁCIO, 1995). Assim os ambientes familiares e escolares devem transmitir a forte sensação que o mundo é bom. No segundo setênio o corpo etérico torna-se autônomo e sua função é manter a vitalidade do corpo físico para proporcionar as tarefas de raciocínio e memória permitindo a assimilação do conteúdo curricular escolar.

Durante o terceiro setênio, o adolescente é encorajado intensamente a fazer uma contribuição para o progresso do mundo, contribuindo para um mundo verdadeiro (AZEVEDO, 1999). PASSERINI (2004) coloca que Platão postula como fundamentos da humanidade: a bondade, a beleza e a verdade, para o desenvolvimento pleno do indivíduo. A pedagogia antroposófica ou waldorf tem três grandes princípios pedagógicos para os três primeiros setênios sendo a imitação, a autoridade amorosa e o juízo próprio respectivamente. Assim como outros princípios são: referencial rítmico (valoriza o ritmo da vida), seu ensino se faz por épocas, como por exemplo: estações do ano, festas cristãs, época das letras, época dos números, pois utiliza a característica infantil, a forma repetitiva como relaciona com aquilo que se ligou. Assim, ela usa a função da memória rítmica de um determinado assunto durante várias semanas . E, posteriormente será retomado em alguns meses (LIEVEGORD, 2002). Outro princípio waldorf consiste ir da atividade ou fenômeno para abstração conceitual. No processo educacional a criança desenvolve as capacidades perceptiva, imaginativo-conceitual e lógico-racional (PASSERINI, 2004) O caminho deve ser sempre da vontade para o sentimento e deste para o raciocínio, sendo que no primeiro setênio prevalece a vontade, no segundo o sentimento  e,  o raciocínio lógico para o terceiro setênio (LANZ, 2005).  Há crítica da concepção do ser humano como tabula rasa e percebe-se uma concepção próxima ao desenvolvimentista heterogênea. Para LIEVEGOED (2002) há duas potencialidades atuantes: a genética e a biográfica. Dessa forma  valoriza a intersubjetividade, o encontro entre os homens, o respeito ao outro e a responsabilidade social:

O homem nasce imperfeito e precisa de um aprendizado de longos anos, em convívio com outros homens, para aprender tudo que é necessário para sobreviver. E se levarmos em conta a parte anímica e espiritual de seu ser, aquela que transcende a luta pela sobrevivência física, ela nunca deixa de aprender, de crescer, de aperfeiçoar-se. (LANZ, 2005, p. 40)

Para RODRIGUES (2002) em nossas vidas o processo de troca não tem limites para o seu desenvolvimento, portanto o ser humano é um ser inacabado. Este inacabamento não é característico apenas dos homens, a natureza e o planeta são inacabados, sendo um fenômeno natural e vital. Onde há vida, existe inacabamento, dessa forma, a educação é um processo na busca de resposta e perguntas fundamentais ao seu desenvolvimento. INCONTRI (2006) acrescenta que todo universo progride e a grande lei que nos rege é do aprendizado contínuo, da evolução ininterrupta e do aperfeiçoamento em todos os campos. PASSERINI (2004) coloca que a educação como princípio formativo é mais intenso nos primeiros anos, por volta dos 21 anos dá lugar a auto-educação.

Então se pode afirmar que, a auto-educação, pois não requer apenas ensino formal é uma experiência individualizada de um saber que transcende o conhecimento cognitivo e intelectualizado e que tem conotações de um processo libertário pessoal repercutindo em seu meio sócio-ecônomico-ambiental.

 

Objetivos:

Analisar a proposta da instituição escolar com o referencial teórico que sustenta e sistematizar questões e práticas efetuadas no âmbito das políticas públicas de saúde denominadas promoção da saúde e escola promotora de saúde.

 

METODOLOGIA

Esse estudo tem uma abordagem qualitativa. Para NOGUEIRA-MARTINS e BÓGUS (2004) a pesquisa qualitativa busca uma compreensão particular daquilo que estuda; não se preocupa com generalizações populacionais, princípios e leis.  Os métodos qualitativos produzem explicações com ênfase no significado do fenômeno. O foco é centralizado no específico, no peculiar, almejando a compreensão do fenômeno estudado, ligado a atitudes, crenças, motivações, sentimentos e pensamentos da população estudada.

 

Procedimentos:

É uma pesquisa em ação caracterizada como um estudo de caso, as técnicas combinadas utilizadas foram análise documental e observação do dia-a-dia.

As fontes de “papel” freqüentemente são capazes de proporcionar aos pesquisadores dados importantes, favorecendo uma rapidez no levantamento de informações pertinentes à pesquisa.  A observação é sempre utilizada na coleta de dados, sendo de forma exclusiva ou conjugada a outras técnicas. A observação é o uso dos sentidos na finalidade de adquirir conhecimentos necessários para o cotidiano. A observação como procedimento científico tem como uma das características a sistematização dos registros. Esse estudo utilizará a observação participante, sendo essa ativa, pois o observador tem uma real participação na vida da comunidade chegando ao conhecimento da vida de um grupo a parte do interior dele mesmo (GIL, 1994).

Para NOGUEIRA-MARTINS e BÓGUS (2004, p. 52-53) o principal objetivo da observação é gerar conhecimento sobre a vida humana, sedimentado na realidade do dia-a-dia. As observações podem ocorrer em quaisquer comunidades, organizações, lares, ruas, lugares de trabalho, salas de aula e outros. Algumas vantagens em sua utilização são:

- conforme o pesquisador passa mais tempo no ambiente, diminui a probabilidade de que as pessoas alterem seu comportamento com sua presença;

- as diferenças entre o comportamento verbal e o real ficam mais aparentes;

- questões podem ser formuladas na linguagem dos sujeitos, usando termos característicos das pessoas estudadas;

- podem ser identificadas a seqüência e as conexões dos eventos que contribuem para o significado do fenômeno;

- muitos dos interesses do pesquisador não podem ser adequadamente investigados por outros meios.

Foi realizado um diário de campo com dezessete encontros registrados nos meses de fevereiro a maio de 2006, sendo esses são principalmente no dia de trabalho da voluntária-pesquisadora, assim como foram registradas conversas com pessoas envolvidas (no curso de introdução da pedagogia waldorf oferecido aos funcionários e voluntários da instituição, por telefone, etc). O diário de campo foi construído da seguinte forma: as folhas de papel foram divididas em duas partes, do lado esquerdo foram registradas as atividades, conversas e sentimentos observados no dia de trabalho da voluntária-pesquisadora e do lado direito foram registrados as notas de campo e reflexivas, são notas expandidas que segundo NOGUEIRA-MARTINS e BÓGUS (2004) serão o fundamento para posterior análise; são significados, códigos, categorias, palavras-chaves, temas, hipóteses, insgihts e idéias teóricas, pois as notas reflexivas mostram a viagem intelectual e emocional do pesquisador, explicitando como o processo de aprendizado e descoberta evoluiu.

                       

Caracterização do campo[1]:

Este estudo foi desenvolvido em uma “entidade que oferece suporte educacional para alunos e munícipes da cidade de São Paulo que apresentam necessidades educacionais especiais” (SME - Educação Especial, 2006). Utiliza recursos da pedagogia waldorf e é freqüentada por crianças, jovens e adultos com comprometimentos neurológicos leves, moderados e graves, podendo apresentar dificuldade de cognição e/ou locomoção e/ou alimentação e/ou comunicação.

Esta instituição é reconhecida como Utilidade Pública Municipal e Federal fundada em 1995. É uma entidade filantrópica legalmente constituída, sem fins lucrativos, atendendo portadores de necessidades especiais, com também, acolhe e educa crianças e adolescentes (órfãos ou separados de suas famílias por medidas judiciais) até que os mesmos possam retornar para seus lares, encontrarem outra família ou até atingirem a maioridade. A instituição tem três unidades, sendo duas casas-abrigo e a unidade III, local da pesquisa é uma casa de apoio contando com 24 vagas. Sua missão “é proporcionar a essas crianças e adolescentes um verdadeiro lar principalmente com amor, carinho e respeito” com alimentação adequada, educação (cultural, moral e profissional), recreação, assistência médica e odontológica e; acompanhamento psicológico e fonoaudiológico (Documento da instituição, s/ data).

A pesquisadora é fonoaudióloga-voluntária da unidade III desde abril de 2005, com freqüência semanal, no período da manhã.

 

Análise do material:

Segundo NOGUEIRA-MARTINS e BÓGUS (2004) quando o objeto de estudo é o próprio homem, a relação de conhecimento se estabelece entre iguais. Desta forma, o critério de cientificidade passa a ser a intersubjetividade, pois o conhecimento é construído pelo sujeito e pelo objeto numa relação dialética. A originalidade de cada acontecimento não impede o estabelecimento de constantes gerais, pois o individual não exclui o geral, nem a possibilidade de introduzir a abstração e categorias de análise.      Para esse específico trabalho, o pesquisador deve estar preparado para o enfrentamento de situações abertas e não estruturadas, assim é necessário que ele tenha “habilidades” de abordagem ao ser humano, por exemplo, em manejo de situações tensas e em entendimento das mensagens implícitas fornecidas pelos sujeitos.

No trabalho de categorização foram identificadas duas modalidades de codificação: sistema de rede de parcerias e tema transversal Saúde.

·         Sistema de rede de parcerias:

As parcerias se constituem tanto pela concepção de homem, como do estado de direitos legalizados formalmente, serão denominadas das seguintes formas: intersetorial e intra-setorial. E, caracterizadas pela formalidade ou pela informalidade.

Iniciaremos com as parcerias intersetoriais. De acordo com a concepção que o homem é uma entidade físico-anímica-anímica-espiritual se constitui uma parceria formal com a escola waldorf mais próxima. Essa escola foi contratada para a capacitação da metodologia do ensino waldorf para seus funcionários e voluntários.

Outras parcerias se formaram de forma informal, pois não há uma questão contratual, mas da vontade de contribuir com as pessoas daquela instituição, com aquilo que sabe. São pais e avós que suas crianças estudam na escola e realizam uma contribuição de forma voluntária e pontual: projeto de paisagismo e construção do jardim, aula de trabalhos-manuais, realização de higienização e avaliação dentária, doação de material pedagógico etc.

Nas propostas para um currículo social do fórum pela humanização do social (s/ data) realizado por pais, professores e ex-alunos waldorfs tem como objetivo contribuir para a formação de indivíduos que tenham uma visão de mundo ampliada de forma que desenvolva a consciência que o ser humano é um ser individual, um ser social e um ser de realização e tem a responsabilidade por sua evolução e de seus próximos, e pode desenvolver ações que influenciam e transformam o meio no qual vive. Segundo a Antroposofia há um aspecto trimembrado no corpo (através do sistema neuro-sensorial, sistema rítmico e sistema metabólico), na alma (do pensar, sentir e querer) como na sociedade organizando de forma ternária:

1.     vida cultural, educacional e espiritual devem ser permeadas pelo princípio da liberdade, que respeita a diversidade;

2.     A vida econômica, a esfera que nutre as necessidades materiais, sociais e psíquicas, deve ser permeada pelos princípios da ética e da fraternidade;

3.     A vida jurídico-estatal, com sua tarefa principal de garantir os direitos dos cidadões, deve ser norteada pelo princípio da igualdade e da justiça (AZEVEDO, s/ data, p. 11).

Podemos considerar uma concepção de cidadania marcada pela co-responsabilidade entre os homens em relação ao meio sócio-econômico-ambiental.

Outras parcerias formalizadas e intersetorial, parte da questão legal, do direito constitucional, ou seja, a Educação e a Saúde é um dever do Estado. Essa instituição é conveniada com a Secretaria Municipal de Educação. Segundo a lei no. 9.394, de 20/12/1996 que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional (LDB), no artigo 2º. : “A Educação, dever da família e do Estado, inspira nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. O sistema municipal de ensino é classificado por serem público e privado. E as instituições privadas apresentam as seguintes categorias: particulares em sentido estrito, comunitárias, confessional e filantrópica. No capítulo V da Educação Especial, o artigo 60º normatiza critérios das instituições privadas sem fins lucrativos, especializadas e com atuação exclusiva em educação especial, para fins de apoio técnico e financeiro pelo Poder Público.

Com a Secretaria Municipal de Saúde o convênio está em fase de inicial, mas o sistema de parceria ocorre com a ida semanalmente na instituição do medico homeopata de uma UBS da região (esse medico já trabalhava como voluntário). E, também para o tratamento odontológico no sistema de referencia de uma determinada UBS.

Outra parceria formal é com o SESI-Projeto Alimentar-se na capacitação da funcionária da Cozinha.

Para TAVARES (2002), as parcerias na escola devem ocorrer de forma intersetorial e com a articulação dos aspectos preventivos, promocionais e curativos na atenção à saúde, além da necessidade de uma maior parceria com os professores e restante do pessoal da educação que trabalha na escola, ressaltando ainda a relevância da participação popular entre a comunidade escolar e seus familiares, integrando seus saberes e práticas com as informações técnicas, que permita compreensão, controle e atuação nos determinantes de saúde, eixos centrais para o desenvolvimento da noção de Escolas Promotora de Saúde.

Estamos denominando de parcerias intra-setoriais, aquelas que ocorrem no interior da instituição: formadas pelos profissionais-voluntários e com os pais de alunos.

Os voluntários são convidados a partir da comunhão entre a concepção de homem como um ser físico-anímico-espiritual. Os profissionais são: auxiliar de cozinha, professora responsável pelo material pedagógico, nutricionista, duas fisioterapeutas, fonoaudióloga. Deste grupo apenas a nutricionista compareceu de forma pontual, os demais realizam um trabalho de forma processual.

Outra parceria que consideramos intra-setorial é com pais. Durante o trabalho da voluntária-pesquisadora, foi observado a partir de relatos dos educadores, a preocupações por parte dos pais quanto aos cuidados realizado nas crianças (alimentação, medicação, higienização) e seus pertences (vestuário, cadeira de roda).   Mostram-se pouco conhecimento da metodologia de ensino. Parece que os educadores são vistos primordialmente como cuidadores. Segundo o Dicionário Aurélio (1993), cuidar significa aplicar à atenção, o pensamento, a imaginação; ter cuidado; fazer os preparativos; prevenir-se; ter cuidado consigo mesmo. Percebemos que o cuidado é percebido pelos pais de forma reducionista, ou seja, restrita ao corpo biológico, com uma visão higienista. Embora os cuidados quanto à saúde física e a prevenção de doenças são visto como uma tarefa pedagógica, o trabalho pedagógico é ampliado, principalmente na utilização dos recursos da pedagogia waldorf: O aprendizado se dá com períodos de atividades dirigidas e comuns, com atividades livres, caracterizando um ritmo de contração e de descontração. Seu currículo acrescenta-se as matérias artísticas e artesanais diferenciadas e igualmente valorizadas como outras disciplinas comuns ao ensino tradicional, como por exemplo, a aquarela e os trabalhos manuais, jardinagem etc. Valoriza materiais e alimentos naturais, o mais próximo da natureza.

Na tese de AZEVEDO (1999) realizado na Associação Comunitária Monte Azul (ACOMA) também com fundamento antroposófico mostra que os pais das crianças não revelam consciência da filosofia que nortea a instituição e, além disso, manifestam a idéia de saúde como ausência de doenças.  E na pesquisa de SANTOS (2205) sobre a percepção dos educadores sobre a escola promotora de saúde houve entre os resultados uma visão assistencialista, baseada na preocupação com o cuidado no momento, sem preocupação com as condições históricos sociais da comunidade escolar.   

E, segundo STEINER (2005) a pedagogia waldorf tem caráter terapêutico, pois o método de ensino está orientado para atuar proporcionando saúde, ou seja, se antes da troca dos dentes (dentição mista) esse sujeito que imita, vindo a autoridade a intervir de maneira acentuada e se a formação de juízos for preparada, tudo isso atuará promovendo saúde.

Desde 1986 o setor da educação está passando por um processo de descentralização e para isso conta com os seguintes instrumentos: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB - Lei 9394/96) é um instrumento legal, na qual a educação escolar deverá se vincular ao mundo do trabalho e a pratica social. E o instrumento pedagógico são os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), propondo uma educação comprometida com a cidadania e foram elaborados os temas transversais, esses significam integração dos saberes e devem ser incorporados nas áreas já existentes no trabalho educativo. Essa forma de organizar recebeu o nome de transversalidade e os temas propostos são: ética, meio ambiente, pluralidade cultural, saúde, orientação sexual, trabalho e consumo (SANTOS, 2006). A despeito de que educar para saúde seja responsabilidade de muitas outras instâncias, em especial dos próprios serviços de saúde, a escola ainda é a instituição que, privilegiadamente, pode se transformar num espaço genuíno de Promoção da Saúde. Com efeito, somente a participação das diferentes áreas, cada qual enfocando conhecimentos específicos à sua competência, não pode garantir que os alunos construam uma visão ampla do que é saúde. A transversalidade não exclui a possibilidade de organização de projetos de trabalho em torno de questões de saúde, o desenvolvimento do tema também se dá pela organização de campanhas, seminários, trabalhos artísticos, mobilizando diversas classes, divulgando materiais educativos produzidos pelos serviços de saúde (MEC, 1998).

Assim, nesta instituição o tema transversal Saúde organizou a partir da observação das atividades realizadas e sistematizadas pelos seguintes “temas geradores” (termo utilizado por IERVOLINO e PELICIONE, 2005 – vide bibliografia): Alimentação Assistida e Prevenção da Disfagia, Saúde Bucal, Nutrição e Segurança Alimentar, Oficina dos Sons e Saúde Vocal, Primeiros Socorros e Acompanhamento Médico.

 

Alimentação Assistida e Prevenção da Disfagia:

O trabalho fonoaudiólogo tem como objetivos avaliar e estimular as funções orais quanto à alimentação (sucção, mastigação e deglutição), respiração, fonação e fala. E, prevenir a piora dos distúrbios de deglutição ou disfagia[2].  Em 2005 foi realizada uma palestra sobre o tema para os funcionários com distribuição de folheto explicativo.

Esse trabalho atualmente está estruturado com a aferição do peso corpóreo, atuação clínica fonoaudiológica durante as refeições (lanche, hidratação e almoço) utilizando os seguintes procedimentos: observação, manipulação de manobras compensatórias, uso de utensílios adaptados, ausculta cervical, modificação da consistência alimentar, orientação a pais, estimulação das funções sucção, mastigação e deglutição. Além da fonoaudióloga, os profissionais envolvidos são os professores, auxiliares, cozinheira e auxiliar de cozinha.

O desafio desse trabalho é transcender a alimentação visto como um fenômeno biológico e ampliar para uma concepção mais abrangente. Para MARCHESAN (1998), a comida é mais que um alimento, é uma linguagem que projeta condições culturais, sociais e econômicas e comer é um prazer, um ato social.

 

Saúde Bucal:

A higienização oral já era realizada pelos educadores. Com a fonoaudióloga esse trabalho foi ampliado com a estimulação oral dos órgãos fonoarticulatórios com estimulação térmica e tátil com outros materiais além da escova dental. O trabalho da dentista-voluntária consistiu na escovação supervisionada e encaminhamento para o tratamento odontológico para Unidade Básica de Saúde (UBS) de referencia.

Seria muito importante a continuidade do trabalho de escovação-supervisionada além de orientações para pais de alunos.

 

Nutrição e Segurança Alimentar:

Os educadores envolvidos são os profissionais da Cozinha com assessoria dos profissionais do SESI (Projeto Alimentar-se), da Secretaria Municipal da Educação. No currículo há aulas de culinária e realização de uma pequena horta.

 

Oficinas dos Sons e Saúde Vocal:

Esse trabalho se constituiu nas duas disciplinas do currículo: trabalhos manuais e música, com ajuda de voluntários. Primeiramente foi confeccionada a capa de flauta, posteriormente foi oferecido a flauta e os apitos de pássaros.

A Oficina dos Sons têm como objetivos a estimulação de diferentes sons através da sua produção: pelo sopro, respiração, vocalização, fala e canto. Tem a coordenação da fonoaudióloga, sendo realizada com a professora e auxiliares de ensino. Está sendo planejado um trabalho Saúde Vocal voltado para os educadores.

No trabalho realizado por SVEZZIA (1994) em um coral para idosos e com idosos que apresentavam comprometimentos neurológicos além dos objetivos de oportunidade de auto-expressão; resgate da memória cultural, do senso de identidade e da auto-estima; também realizava promoção da estimulação física (reeducação postural, respiratória, articulatória e alívio de stress), cognitiva, emocional e social, contribuindo na melhora da qualidade de vida, colaborando no desempenho de atividades cotidianas como alimentação, comunicação, mobilidade global e; possibilidade do exercício da autonomia.

 

Primeiros-Socorros e Acompanhamento Médico:

O acompanhamento médico ocorre desde a criação da unidade, em 2004. O trabalho era realizado de forma voluntária. Esse trabalho envolveu a composição da caixa de materiais farmacêuticos de primeiros-socorros e a “farmacinha”, com as medicações homeopáticas mais usadas Em 2005 foi feita uma palestra para funcionários com esses temas. Atualmente há o serviço da UBS de referencia.

O cuidado médico-homeopático abrange todo um complexo existencial, sendo eles: meio ambiente; alimentação; modo de vida; formação escolar, moral, religiosa e profissional; sua vida familiar e afetiva e seu equilíbrio vital (GALVÃO NOGUEIRA e col, sem data).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Acreditamos que, na instituição estudada, sua prática pedagógica e o suporte teórico que sustenta são ações promocionais da saúde. Pois, a partir de sua concepção de homem abarca a visão de saúde de forma ampla, integrando os aspectos biopsicossociais.

Contudo, os pais percebem a instituição como um local que desenvolvem ações de cuidados principalmente para a saúde física. Nos documentos, a instituição é denominada como uma casa apoio que dá suporte educacional para alunos e munícipes da cidade de São Paulo portadores de necessidades educacionais especiais. Recorrendo novamente ao Dicionário Aurélio: Apoio significa tudo que serve de sustentáculo ou suporte. Auxilio, socorro. Aprovação, aplauso. E, Suporte: o que suporta algo. Aquilo que algo se firma ou assenta. Acreditamos que são esses significados que entrelaçam a relação instituição, alunos e seus familiares, ou seja, é uma via de ajuda para essas pessoas que moram em bairros periféricos da cidade de São Paulo, e enfrentam condições bastante precárias de vida, com a presença de um sujeito portador de necessidades especiais.

Segundo Nogueira MARTINS e BÓGUS (2004) promover saúde é um processo amplo, demorado e complexo, pois envolve mudança de comportamento. E, acreditamos que a instituição por ser de caráter educacional, pode-se almejar na construção de práticas de uma escola promotora de saúde, sugerimos a participação dos pais de forma que possam se comprometer com os princípios norteadores da instituição e na formação de multiplicadores, pois as maiorias dos trabalhos ocorrem no período da manhã e como há funcionários que trabalham em período integral, eles podem ser agentes potencializadores na promoção e educação em saúde.

 

BIBLIOGRAFIA

AZEVEDO CSC de. Promoção de Saúde: uma experiência baseada na Antroposofia: O caso da favela Monte Azul. [tese]. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da USP, 1999.

AZEVEDO CSC de. Encaminhamento da idéia do currículo social In FÓRUM DA HUMANIZAÇÃO SOCIAL PROPOSTA PARA UM CURRÍCULO SOCIAL: SUGESTÕES E EXPERIÊNCIAS NO BRASIL E NO EXTERIOR, sem data: p. 10-17.

BÓGUS CM. A promoção de saúde e a pesquisa avaliativa. In VILLELA WV, KALCKMANN S, PESSOTO UC, organizadores. Investigar para o SUS: construindo linhas de pesquisa. São Paulo, 2003. p. 49-58.

 



* Fonoaudióloga e Mestre em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação da Coordenaria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo - Área de concentração: Saúde Coletiva. Atua em consultório particular e na Casa Jesus e Caridade - Larzinho Unidade III- Casa de Apoio para crianças e jovens com necessidades especiais.

** Cirurgiã-dentista e Mestre em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação da Coordenaria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo - Área de concentração: Saúde Coletiva. Atua em consultório particular e na Escola Municipal de Ensino Fundamental “Vicentina Ribeiro da Luz”.

[1]Campo é o espaço físico onde o pesquisador julga serem regularmente encontrado, como sendo seu ambiente natural, as pessoas que poderão falar com autoridade sobre o tema definido em seu projeto de pesquisa e onde poderá relacionar-se com elas com o alvo de ouvir um discurso pertinente e observá-las em sua postura” (TURATO, 2003, p. 322).

 

[2] Segundo MACEDO FILHO e col (2000, p. 29): “disfagia é qualquer dificuldade da deglutição decorrente de processo agudo ou progressivo, que interfere no transporte do bolo alimentar da boca para o estômago". Ela é um sintoma ligado a várias patologias. Na literatura científica são usados dois critérios de classificação para a disfagia: por localização das fases da deglutição e pela etiologia. Quanto à classificação de localização, a disfagia pode ser orofaríngea ou esofagiana. Quanto à etiologia pode ser mecânica, psicogênica ou neurogênica.  Os sintomas são desordens na mastigação, dificuldade em iniciar a deglutição, regurgitação nasal, controle de saliva diminuído, tosse e/ou engasgos durante a refeição. O paciente pode ficar com desidratação, desnutrição, pneumonia aspirativa ou problemas pulmonares, que podem estar ligados a uma disfagia sem sintomas aparentes (aspiração silenciosa). Geralmente as queixas são perda de peso lenta e gradual, dor no peito, sensação do alimento parado no peito, regurgitação, tosses e engasgos. Raramente o comprometimento ocorre em nível esofágico, ocorrendo freqüentemente em nível oral e/ou faríngeo (SANTINI, 1999).