Cabeçário_Edição_05

A IDEOLOGIA SUBJACENTE AOS TEXTOS DIDÁTICOS

Joana Maria Rodrigues Di Santo*

 

capa_Belas mentirasDEIRÓ, Maria de Lourdes Chagas. As Belas mentiras. A Ideologia Subjacente aos Textos Didáticos. São Paulo: Centauro, 2005.

A autora, Maria de Lourdes Chagas Deiró Nosella, distingue-se por basear suas análises mais na documentação que na intuição, tendo examinado perto de vinte mil páginas de livros didáticos, ordenando-as segundo temas significativos que deram origem a esta obra; sua tese de mestrado sob orientação de Dermeval Saviani, na PUC/SP, em 1978.

Empenhou-se em voltar-se para o interior da escola, buscando compreender os mecanismos específicos através dos quais o aparelho escolar cumpre determinadas funções gerais. Em vez de reiterar alguma tese já defendida, busca verificar a maneira específica pela qual se traduzem os efeitos de sua veiculação no cotidiano da atividade escolar.

Assim, o raciocínio em que se baseia pode ser formulado nos seguintes termos: se nas sociedades organizadas sobre a base de modo de produção capitalista, escolas desempenham primordialmente, embora não exclusivamente, a função de inculcação da ideologia dominante, então, nessas sociedades, o livro didático é introduzido nas escolas com a função precípua de veicular a ideologia dominante. Como está organizada a mensagem dos livros didáticos de modo a traduzir para efeito de consumo diário nas escolas, a ideologia dominante? é a questão que busca equacionar, na análise da escola primária; essencial para se entender o papel do aparelho escolar, no seu todo, em relação à sociedade global.

Introdução e Capítulo um: fala da origem e justificativa da pesquisa, esclarecendo que observações assistemáticas suscitaram a constatação de que o mundo descrito nos textos didáticos não correspondia ao real e que sentiu, então, o desejo de explicitar, de maneira mais rigorosa e sistemática, a defasagem entre estes dois níveis: o imaginário (descrito pelos textos) e o real (vivido pelas crianças). Acrescenta que o objetivo central da formação social capitalista será sempre, essencialmente, o lucro e que, em textos que aparentemente procuram estimular o comportamento autônomo, constata uma ação impregnada de conteúdos ideológicos de que o aluno deve ficar passivo e obedecer, ou seja, incentivam postura acrítica dos receptores dessas mensagens ideológicas.

A ideologia dominante, como maneira de conceber o mundo, não opera apenas enquanto maneira de as pessoas representarem o mundo, mas constitui elemento intrínseco às estruturas das crianças, ao mesmo tempo em que atua como elemento estruturador dessa personalidade, pelos processos de assimilação e acomodação. As crianças, submetidas à maciça inculcação dessa ideologia, não irão apenas aprendê-la, mas terão toda sua estrutura de pensamento impregnada por ela. E isso numa faixa etária em que ainda não dispõem de discernimento para poderem fazer opções baseadas em seus valores pessoais.

Objetivo da Obra: Nosella espera que esta pesquisa possa auxiliar as equipes escolares numa análise crítica das relações entre  professores e alunos, a fim de que adotem atitude de valorização da autonomia de todos os envolvidos.

Formulação da hipótese: professores atuam de forma a frear a autonomia do aluno, mantendo-o dependente. O objetivo da ideologia subjacente a esse fato seria didático: a manutenção do ethos capitalista que, por sua vez, justificaria as relações de produção da sociedade vigente, favorecendo a classe dominante.

Referencial teórico – Pesquisa com objetivo de desmascarar os objetivos formais, apontando para os objetivos reais das mensagens ideológicas transmitidas aos alunos. Esse processo de mascaramento se apóia e se justifica por um esquema teórico determinado, utilizado para descrever a sociedade capitalista, suas características,  mecanismos, objetivos e aparelhos fundamentais. Preocupou-se com a aplicação da teoria; a função dos textos de leitura dentro do aparelho escolar, que é o de veicular a ideologia dominante.

A autora pôde constatar, ao longo do estudo, um processo dialético entre a utilização assistemática do esquema teórico e a utilização mais rigorosa do mesmo. À medida que coletava observações assistemáticas sobre os textos de leitura, o esquema teórico ia se delineando cada vez mais nitidamente e se transformando no fio condutor que dirigiu uma análise ainda mais rigorosa e profunda sobre os referidos textos.

Nosella descreve a sociedade capitalista como constituída de dois níveis: 1- o nível da infra-estrutura, que é a base econômica onde se desenvolve o modo de produção dessa sociedade, e 2- o nível da superestrutura, que é constituído pelas formas jurídico-políticas: organizações e instituições sociais e ideológicas (ideologias religiosa, moral, jurídica, política, etc.) e que são determinadas pela base econômica. Fala que a reprodução das relações de produção implica uma reprodução da submissão da força do trabalho à ideologia dominante para os operários e uma reprodução da capacidade para manejar bem a ideologia dominante para os agentes da exploração e da repressão, para que assegurem também “pela palavra” a dominação da classe dominante.

Posição do professor, que passa ao aluno aquilo que é; se é dominado, é esse o exemplo que passa ao aluno. Agora o aluno não quer mais seguir o exemplo do dominado e se revolta; já percebeu que esse discurso de autonomia é um engodo e que à força tem se sobressaído.

Os aparelhos de Estado tentam o impedimento da oposição a essa exploração da classe trabalhadora, que consiste da apropriação da mais-valia no sentido de acumulação privada de capital. Se pensarmos na curvatura da vara, está havendo grande desequilíbrio dessas forças repressoras porque estão sendo testadas a cada momento, seja no caso da Febem, do MST, dos presos. A violência está atingindo um índice absurdo, mas os que pagam não são, na maioria das vezes, da classe dominante, mas os igualmente dominados, que não têm como se defender da ira dos revoltosos.

Professores são atacados em escolas porque representam a perpetuação do status quo que querem quebrar e superar; confundem violência com autonomia.

São dois os tipos de aparelhos que compõem o Estado:

1 - Aparelho repressivo de Estado, que objetiva garantir a exploração pela violência física ou administrativa do governo, das prisões, dos tribunais, do exército, da polícia.

2 - Aparelhos ideológicas de Estado, que objetivam a inculcação da ideologia dominante pela família, pela escola, pelos sindicatos, pelos partidos, pelos meios de comunicação cultural e outros. (Como os meios de comunicação podem colaborar de maneira real se são pagos por aqueles que desejam auferir vantagens?)

Os dois tipos de aparelhos atuam de forma articulada: os repressivos, como a censura policial, auxiliam o funcionamento dos ideológicos, como os meios de comunicação, enquanto estes auxiliam àqueles, apresentando-os como legítimos.

Objetivo das lutas da classe: obter o poder de Estado, a fim de que a classe vitoriosa utilize o Estado, juntamente com todos os seus aparelhos, para a imposição, defesa e reprodução das condições que garantem os seus interesses de classe.

A necessidade de se realizar a abstração do conceito de ideologia em geral surge, numa primeira instância, a partir do fato de que se aplica o termo ideologia tanto para a classe dominante, que orienta sua ação de dominação e exploração, como também para a da classe dominada, que orienta sua ação de libertação. Como é usado o mesmo termo para dois posicionamentos antitéticos, deve haver algo comum entre as duas posições, que é preciso explicitar. O conceito de ideologia em geral é puramente abstrato. Tal abstração torna-se indispensável não só para que se possa realizar a abordagem exata sobre o conceito de ideologia dominante do mundo capitalista, mas, sobretudo, para a avaliação e utilização da ideologia como instrumento de ação libertadora do homem no mundo. Embora o conceito de ideologia em geral seja uma operação formal, sua abordagem faz-se necessária para que não se transforme a ideologia num monopólio da classe dominante

Ideologia “sistema de idéias, das representações, que domina o espírito de um homem ou de um grupo social”. (Althusser, Louis). Tal ideologia tem por função sustentar e justificar teoricamente a ação; trata-se de princípios e normas que orientam a ação. Neste livro, ideologia é entendida como uma leitura feita pela autora de uma situação histórica num conjunto de eventos; leitura orientada pelas exigências da ação a ser realizada. A ação exige que sempre exista um suporte teórico (ideologia) que a justifique, e este último não será a explicação mais exaustiva da realidade. Toda ideologia que sustenta uma ação tem como característica a parcialidade como uma exigência mesma da ação.

Pode-se afirmar que a ideologia em geral jamais é exaustiva, isto é, no sentido de ser sempre parcial, fragmentária, superável, “por isso a filosofia é sempre necessária e a ideologia será sempre parcial, fragmentária e superável”. (Dermeval Saviani). A ideologia será objetiva na medida em que acompanhar o movimento dialético da História.

A partir destas afirmações, poder-se-ia dizer que a ideologia em geral é radicalmente ambivalente, isto é, ela poderá estar a serviço da dialética da História, explicitando as contradições, como poderá exercer uma função conservadora, camuflando as contradições objetivas. No primeiro caso tem-se uma ideologia objetiva; no segundo, uma ideologia falsa e mistificadora. Não existe ideologia neutra, porque toda ideologia, à proporção que é formulada, será sempre existencialmente engajada. Enquanto definida como princípios e normas que orientam a ação, tanto poderá orientar a ação libertadora (dialética e objetiva) da classe dominada, como, ao contrário, poderá orientar a ação conservadora, de manutenção do status quo (antidialética e não-objetiva). Essa última trará em si, naturalmente, a conotação falsa e mistificadora da ideologia da classe dominante na sociedade capitalista.  (No positivismo, professores tinham ideologia da classe dominante e passavam isso em suas atitudes. Agora, professores têm ideologia da classe dominada, mas estão em dúvida, ainda, e passam isso para os alunos, que se revoltam).

Aparelho ideológico escolar. Quando se descortinou o que havia por trás e começou-se a “abrir os olhos” dos docentes, uma atitude de massa por parte dos dominantes arrasou a classe, começando pelos salários vergonhosos, desrespeitando a categoria, tornando-a cada vez mais uma categoria de explorados (proletários). A autora fala de relacionamentos autoritários e que os professores deviam ter idéia do que está por trás da acriticidade e lutar para debelá-la, ao invés de engrossar a camada que a impulsiona.

Nosella vai delinear a natureza e a função política da ideologia da classe dominante numa formação capitalista. A sociedade capitalista burguesa professa, como princípio expresso, que todos os homens são iguais. A práxis econômica em tal formação, no entanto, discrimina o homem dentro de uma estrutura de classes. Para alcançar os objetivos mistificadores, a ideologia jamais poderá apresentar-se como tal: logo, deverá apresentar-se como ciência, a fim de provocar a adesão, mais ou menos geral, das classes dominadas.

A classe dominante, para garantir sua hegemonia na sociedade capitalista, utiliza-se dos aparelhos ideológicos do Estado, sendo que o escolar assume a posição preponderante no conjunto desses aparelhos ideológicos, devido à sua eficácia na inculcação da ideologia dominante. Ao desempenhar tal função, submete a clientela, tanto da classe dominante e, principalmente, da classe dominada, a uma visão de mundo em que a estruturação da sociedade em classes e a exploração de uma pela outra se tornam naturais. Como diz Althusser:

[...] a Escola (mas também outras instituições do Estado, como a Igreja e outros aparelhos, como o Exército) ensinam ‘saberes práticos’, mas em moldes que asseguram a sujeição à ideologia dominante [...] Todos os agentes da produção da exploração e da repressão devem estar [...] penetrados dessa ideologia, para desempenharem conscienciosamente a sua tarefa – quer de explorados (os proletários), quer de exploradores (os capitalistas) [...] A reprodução da força de trabalho tem pois como condição sine qua non não só a reprodução da qualificação dessa força de trabalho, mas também a reprodução da sua sujeição à ideologia dominante.

A ideologia não pode apresentar-se como tal e assume a imagem de ciência neutra. Enquanto o positivismo dominava, os professores tinham maior respeito da população e dos alunos; seu salário era maior e ele agia com neutralidade. A partir do momento em que ficou evidente que não há neutralidade e que toda ação é engajada, os professores perderam, tanto na questão  salário quanto respeito e passaram a ser cada vez mais enfraquecidos, a fim de não conseguirem desvendar a ideologia para os explorados, que não os respeitam como seria necessário  para possibilitar um trabalho mais eficaz.

A escola também, conseqüentemente, pretende representar o papel de instituição com objetivos culturais neutros, onde os mestres fazem a criança aceder à liberdade, moralidade e responsabilidade de adultos pelo seu próprio exemplo, pelos conhecimentos, pela literatura e pelas virtudes libertadoras.

O aparelho escolar, ao cumprir sua função de instrumento de inculcação da ideologia da classe dominante à classe dominada, sendo a primeira objetivamente antitética à segunda, comete necessariamente um ato de violência, mesmo que simbólica, a fim de que esse ato de inculcação se realize. A violência simbólica reside no fato de se veicular, por meio do aparelho escolar e, principalmente, na rede de ensino oficial, onde a maioria da clientela pertence à classe proletária, uma visão de mundo da classe dominante, como sendo a única verdadeira. Sugere, ainda, que outras visões de mundo são inferiores, anticulturais. Mediante a imposição da visão de mundo da classe dominante, impede-se que a classe dominada tenha a possibilidade de  elaborar sua própria visão de mundo a partir das suas condições de existência e de seus interesses.

A ação pedagógica desenvolvida na escola obriga os alunos a interiorizarem ensinamentos e princípios, de maneira contínua e metódica, formando neles um habitus que permanece, mesmo quando cessa essa ação pedagógica. Tais ensinamentos e princípios, determinando esse habitus, geram práticas e atitudes que favorecem o modelo sócio-econômico-político defendido pela classe dominante. Neste trabalho, a autora aborda um dos principais elementos da ação pedagógica responsável pela formação desse habitus: os textos didáticos.

O trabalho é registrado em dez capítulos, nos quais Nosella realiza análise dos conteúdos manifestos dos textos de leitura, explicitando os conteúdos ideológicos subjacentes, que formam boa parte do que se chamava de “currículo oculto”, pelo qual a criança assimila determinados comportamentos, valores, modos de conceber a realidade etc. Para cada texto utilizado foram feitos pequenos comentários, que dentro dos limites da pesquisa, conseguem apontar apenas para as mensagens ideológicas subjacentes aos textos, não tendo finalidade de esgotar a riqueza desses mesmos aspectos ideológicos.

Família, por exemplo, é mostrada como unida e feliz apesar de pobre, o que significa que a necessidade de melhor distribuição de bens; maior justiça social não são primordiais para a felicidade de seus membros ou para a ordem e felicidade social. O objetivo ideológico não é persuadir os que possuem a renunciarem ou concordarem com sua melhor distribuição, e sim a de convencer os oprimidos a serem felizes assim mesmo.

Excesso de elogios dedicados à mãe parece ser uma forma de castração à mulher, no sentido de obrigá-la, mediante chantagem emocional muito forte, a permanecer desempenhando esse papel. Seria uma forma de impedir qualquer revolta de um ser humano que está sendo explorado. Pode-se ter certeza de que, quando o trabalho da mulher fora de casa for economicamente interessante para a sociedade capitalista, encontrar-se-ão todas as formas de persuasão afetiva e intelectual para justificar o “êxodo” das mulheres de seus lares. Hoje,  isso realmente está ocorrendo.

Mães “estereótipos’ não pertencem a uma classe social definida, nada indicando que algumas sejam ricas e outras nem tanto. Elas transcendem o conceito da classe. A única mãe que aparece descrita de maneira definida é a pobre, que luta para sustentar os filhos que lhe ficam eternamente gratos e devedores, pois essa é uma dívida impossível de pagar. Os filhos podem amortizá-la com alguns comportamentos exemplares, que invariavelmente são os de bons, obedientes, estudiosos.

Fica evidenciado que o objeto principal da ideologia desses textos é a família como instituição e não as pessoas concretas. A simbologia animal é mais um instrumento de inculcação de comportamentos de obediência desejados pelos pais e que se tornam moralmente necessários até que possam ser automáticos nos indivíduos em qualquer idade e situação da vida adulta.

Segundo os textos de leitura, as crianças, quando ativas, independentes, cheias de vida, originalidade e criatividade, são más, mal educadas, desobedientes e fazem travessuras. De forma semelhante os professores se referem aos alunos com tais características, valorizando aqueles que não atrapalham e não questionam e que, também não são críticos nem criativos.

Quando a criança é boa, estudiosa e obediente, é elogiada nos textos porque aprendeu o comportamento que lhe foi prescrito. A desobediência é sempre muito perigosa, pois acaba sendo castigada, não pelos pais, que são muito bons, mas pelo destino ou por entidades como bruxas e sacis, como no texto: A abelhinha conta uma estória, onde a menina desobediente fugiu para a floresta sem o consentimento dos pais, deu de cara com o saci e ficou presa na casa de uma bruxa.

Ao se valorizar mais a obediência à autoridade constituída e a passividade diante de comportamentos predeterminados, se está anulando toda originalidade, criatividade e espírito crítico das crianças, impedindo que surjam novos comportamentos mais adaptativos. O objetivo aqui é suprimir qualquer desvio da conduta. Com essa educação, a criança se transformará num adulto dócil e integrado na vida da sociedade. Dessa forma, os filhos incorporarão para sempre o comportamento de obediência e conformismo diante da autoridade de qualquer de seus superiores.

(Refletir: as novas gerações não estão mais assim. Será que os textos mudaram muito? O que mudou?)

É muito significativo constatar que os comentários ouvidos no meio da classe média e rica, atualmente, são justamente o contrário do que é exposto nos textos de leitura analisados. A defasagem entre os comentários e os textos se explica pelo fato de as contradições sócio-econômicas explodirem e se revelarem na vida real e não serem retratadas nos textos de leitura. As conotações paternalistas dos textos demonstram as influências da época escravista, onde o paternalismo era a única atitude que justificava, diante de uma consciência burguesa, as relações entre patrão e escravo.

Nosella afirma que além de uma visão padronizada e estática da família, de seus membros e do relacionamento entre eles, onde não há nenhum realismo, a instituição família é representada pelos textos de leitura também como ilhada do mundo. Não se percebe pelas mensagens a inserção da família dentro da sociedade. De forma alguma se poderia esperar que , nesses textos, a família fosse apresentada como uma célula viva, ativa, como instrumento de renovação da sociedade em geral. É apresentada como lugar de paz, segurança e felicidade para os seus membros; não aparecem conflitos pessoais, nem reflexos dos conflitos sócio-econômicos-políticos existentes na sociedade capitalista. A família dos textos é completa, fechada, auto-suficiente, como um mundo existente à parte, em si e para si.

 

No segundo capítulo, A Escola é apontada como grande tesouro a ser adquirido. Freqüentá-la e iniciar-se em seus ritos é uma ideologia elaborada pela classe dominante, transmitida por meio dos textos de leitura e, também, dos outros conteúdos administrados pelas disciplinas escolares. A mesma ideologia é veiculada por todos os inúmeros requisitos exigidos, e pelos comportamentos dos que fazem parte dessa estrutura escolar, que discrimina setores da população que não possuem escolas para freqüentar onde residem e/ou não podem freqüentá-las porque têm que trabalhar. As crianças de classe dominante têm vantagens de condições sociais prévias que lhes garantem êxito escolar e serão considerados naturalmente superiores, inteligentes, preparando-se para ocuparem os melhores empregos oferecidos pela sociedade. Assim é criado um círculo vicioso que por meio do conteúdo educacional e de outros aspectos da estrutura escolar, manterá e legitimará o status quo.

Da mesma maneira que os pais, os professores são idealizados e não descritos como pessoas concretas, com qualidades e defeitos. É preciso que os alunos os respeitem como autoridades, para que possam controlar a disciplina. pelos textos didáticos; não se pode desobedecer a mãe, que faz tantos sacrifícios, nem a professora, para a qual os alunos são como filhos. Há uma grande identidade entre a instituição família e a escola, pois os relacionamentos afetivos e os disciplinadores que se instauram na família prosseguem na escola. A autoridade familiar, que gera a disciplina na família, é reforçada e legitimada pela autoridade escolar. O conceito de autoridade baseia-se no respeito, obediência, passividade e não no diálogo e busca comuns. A autoridade sempre deve ser obedecida, respeitada e amada. Estes são os deveres das crianças como filhos e alunos. As pessoas devem apresentar comportamentos que não incomodem, não tragam inovações, perturbações sempre existentes em qualquer tipo de transformação. Em geral, nos textos de leitura, são sempre as mulheres que desempenham a função de ensinar. Os homens mencionados desempenham a função de dirigir a escola e representam a autoridade máxima, sendo severos, distantes, fiscalizando os estudos dos alunos e sendo por estes respeitados.

A desvalorização social e profissional da função de professora primária, sua baixa remuneração, faz com que tais empregos sobrem para a mão-de-obra feminina, de menor custo.

A identidade entre a instituição familiar e a escolar se repete constantemente nos textos, sugerindo a similaridade das funções de governar das autoridades de ambas. Relacionamento entre professor e aluno é, também, vertical, como entre pais e filhos, visto ser uma relação entre autoridade (cultural e disciplinar) e subordinados; os alunos obedecem, estudam, aprendem, não questionam, não criticam, não pensam. Assim, escola e família são instituições utilizadas como instrumentos para invalidar qualquer comportamento mais original e irrequieto dos alunos, objetivando transformá-los em seres quietos, passivos e uniformes, premiando as crianças pelas atitudes exemplares. Isso deu certo por muito tempo, mas agora está sendo bastante questionado e muitas crianças não estão se deixando enquadrar nesses esquemas rígidos. É importante que o aluno queira inovar, inventar e não apenas obedecer.

Toda essa ideologia massificante difundida aos alunos, encobre inúmeros problemas, como a importância da condição sócio-econômica do aluno para a determinação do seu sucesso ou fracasso escolar; a discriminação exercida pela sociedade capitalista mediante a escola, possibilitando que restrita minoria continue seus estudos com qualidade; problemas das desigualdades sociais são ignorados; problema do custo do estudo dos filhos para a economia familiar; a escola baseia-se num modelo autoritário e repressivo, onde os métodos de aprendizagem são fundamentados na disciplina e os relacionamentos entre professores e alunos são estáticos. Essa uniformização e controle das crianças têm implicações sócio-políticas, já que assim se conseguirá transformá-las em seres obedientes e, provavelmente, cidadãos pouco criativos, conformados diante de toda e qualquer autoridade, que só agem seguindo ordens. A seleção social, que faz com que alguns sejam privilegiados, é camuflada pela desculpa do mérito individual. A escola é um mundo fechado em si mesmo, imutável, no qual a obediência é valorizada muito mais do que a curiosidade, o espírito crítico e a criatividade.

No capítulo três, quatro e cinco, Nosella diz que a impressão causada pelos textos é a de que o país constitui uma “entidade’ com personalidade própria, independente dos indivíduos que formam o seu povo. Tais textos pretendem inculcar nos alunos a imagem de uma Pátria poderosa, com o objetivo de impedir análises críticas sobre o tipo de estruturação social capitalista do país (que gera grandes desigualdades) e o processo de atualização histórica. (O país está sendo submetido a processo colonialista, de dependência econômica e política de outras nações, desde o seu descobrimento até os dias atuais). A Pátria é comparada à mãe generosa e protetora que se deve amar e todos são responsáveis pelo futuro da Pátria, inclusive as crianças. Os condicionamentos ideológicos colocam as crianças em atitude receptiva, de prontidão para seguirem sugestões que lhes forem dadas como maneiras de participar do progresso do país.

As mensagens ideológicas subjacentes e veiculadas por todas as instituições: Família, Escola e Pátria condicionam as crianças a se sentirem responsáveis, não só pelo progresso, mas pela defesa da Pátria, cuja noção é limitada às descrições genéricas de aspectos da natureza.

Autores dos textos de leitura, ingenuamente, ou não, conscientemente, ou não, dificultam às crianças o conhecimento da realidade brasileira, cheia de contradições. Tais textos, perfeitamente moldados à ideologia a que servem, têm como objetivo instilar um alegre e ingênuo patriotismo. Tal mensagem deforma a realidade das relações entre indivíduos e classes sociais distintas, que objetivamente não podem se dar as mãos. (Alunos e professores também não podem ser colocados em situação igualitária, porque o professor vai transmitir-lhes conhecimentos - refletir). O comportamento da classe dominante no Brasil é um dos mais cruéis que se pode observar. Seus componentes, formados há séculos dentro de uma ideologia capitalista-escravista, vigente ainda hoje, consideram a grande maioria que compõe a classe trabalhadora não só inferior, mas radicalmente “coisa” destinada a seu uso.

Quanto aos símbolos nacionais, a ideologia objetiva transmitir aos brasileiros sentimentos acríticos de orgulho patriótico, induzindo a que sigam todas as normas de comportamento que forem ditadas para a união e progresso da nação. Os fatos históricos e patrióticos fazem com que todos se sintam tomados por sentimentos de glória e expressem seu amor pelo cumprimento de seus deveres. Textos de ideologia dominante impedem que venha à tona o questionamento do que representa concretamente o solo pátrio (propriedade privada da classe dominante) e têm o objetivo de condicionar crianças a colocarem o dever, isto é, o amor, a obediência, o respeito por todas instituições acima de si próprio e de maneira acrítica. Quando adultos, estarão deformados em seus comportamentos, pois aprenderam apenas a obedecer, respeitar e amar os pais, professores e outras autoridades, pelo simples fato de serem “autoridades”.

Poemas sobre fatos da História do Brasil relatam, de maneira abstrata, acontecimentos históricos e políticos, sem mencionar as causas que os determinaram, nem suas conseqüências; são idealizados, e a verdadeira História do Brasil fica esquecida nos bastidores. Parecem cenas estanques, de uma história estática, perfeitamente adequada aos interesses do sistema. Cria-se uma espécie de torpor intelectual com a conseqüência prática de as crianças acharem gloriosa toda a história passada, o que lhes impede de desenvolver uma visão crítica da história colonialista e neocolonialista do país.

Mensagem ideológica dos feitos na arte e no esporte tem por objetivo mostrar que indivíduos isolados conseguem realizar grandes feitos, baseados em seus talentos pessoais, por mérito próprio. A ideologia capitalista aparece nestes textos com um tipo de mensagem na qual quem realmente tem valor triunfa independentemente de qualquer circunstância. As normas que existem para os filhos e alunos repetem-se para os cidadãos adultos: cumprir com seus deveres, omitindo seus possíveis direitos. Tais textos veiculam visão “estereotipada” da Pátria com a finalidade ideológica dominante de mascarar uma situação social, econômica e política real; insinuam visão de Pátria grandiosa, como entidade que tem existência em si mesma, independente de todo o povo.

A classe privilegiada, assim, assegura a manutenção de sua posição, já que não são relacionados os sérios problemas sociais, políticos e econômicos pelos quais passa o povo brasileiro com a estrutura capitalista, num contexto nacional, e a dependência econômica e política, no contexto mundial.

Nos textos referentes ao ambiente, as maneiras expostas de viver no campo e na cidade  com suas perspectivas de vida são sempre as mesmas, sendo a cidade menos citada que o campo, quando se fala da importância do trabalho agrícola para o desenvolvimento da nação. O homem do campo é feliz em sua idílica vida campestre, enquanto o problema agrário do Brasil é um dos mais sérios e com pouca probabilidade de ser solucionado (apesar da luta engendrada atualmente pelo MST). Aqui está uma das belas mentiras dos textos de leitura ditada pela ideologia da classe dominante, pois nem todos que plantam colhem e nem todos que trabalham na colheita têm.

As descrições, tanto da zona rural quanto da urbana são abstratas, imutáveis e, por isso, empobrecidas, pois não se referem a nenhum lugar existente. A real interdependência sócio-econômica entre a cidade e o campo, que não é absolutamente harmônica, mas sim conflitante, não é mencionada. Não é analisado o êxodo rural, que gera o problema dos aglomerados urbanos, criando o exército de reserva, que abaixa ainda mais o custo da mão-de-obra, aumentando a exploração da classe trabalhadora. Nas descrições da cidade se dá destaque ao consumo.

Ideologia dominante com mensagens singelas sobre a necessidade de preservação da árvore mascara as especulações econômicas que determinam a devastação de florestas. Oculta, mais uma vez, os sérios problemas sócio-econômicos do norte e nordeste do país.

Também os rios são citados de maneira sentimental e poética, silenciando em relação à desenfreada poluição, principalmente decorrente de resíduos químicos das indústrias.

A natureza e seus elementos, sua flora e sua fauna são fantásticos, poéticos e mágicos, com absoluta irrealidade das situações, desligadas do cotidiano e de lugares realmente existentes, com objetivo de dissimular os sérios problemas ecológicos criados pelas relações de produção da sociedade capitalista.

Segundo os textos de leitura, o trabalho (e suas características) é visto como um hobby, que dá muita alegria e satisfação. Ao trabalho é colocado que o homem deve sua felicidade e sua saúde, considerando-o uma das maiores virtudes que se pode possuir, pois será sempre recompensado com a abundância e riqueza. No entanto, acreditar que o trabalho honesto e assíduo é sempre recompensado com lucros, como está nos textos de leitura, é distorcer toda a realidade econômica de uma sociedade capitalista. Não se analisa a necessidade do emprego e da acumulação de capital para que se possam obter lucros.

Com relação a profissões, a ideologia artesanal antiga foi substituída pela ideologia industrial-capitalista, cujo objetivo é distorcer a realidade contemporânea, substituindo-a por outra mais abstrata e superada., a fim de que as contradições existentes no meio urbano industrial não aflorem e sejam analisados nos textos de leitura. Não são mencionados problemas sócio-econômicos existentes nas relações trabalhistas entre patrões e proletariado. A ideologia da classe social dominante tem por objetivo transmitir imagens de um relacionamento harmonioso. Seria necessário demonstrar a falsidade da ideologia que sugere, nos textos, que as diferenças sócio-econômicas, dentro da estratificação social, não são de grande importância, pois todas as profissões são boas e úteis, logo, são iguais.

Passando a imagem de que quem estuda trabalha, encobre os privilégios daqueles que além de poderem estudar, também podem não trabalhar realmente. Como se não houvesse uma grande diferença entre o trabalho intelectual e o braçal. Mascaram-se as verdadeiras causas, que são as diferenças sócio-econômicas, que determinam a existência de crianças cujo único trabalho é o estudo, e de outras que realmente trabalham, além de estudar, e outras , ainda, que só trabalham. Os textos de leitura jamais explicitam os reais mecanismos econômicos e sociais que regem o mundo do trabalho. A ideologia capitalista dominante harmoniza o mundo do trabalho, igualando as diferentes profissões., estereotipando as relações de trabalho, idealizando os trabalhadores.

No capítulo seis, Pobres e Ricos, mensagem ideológica altamente alienante propõe que a riqueza não resolve os problemas das pessoas nem lhes traz felicidade. Tal mensagem pretende impedir que as crianças pertencentes a uma sociedade capitalista questionem a posição sócio-econômica privilegiada de uma minoria rica que, mediante a concentração de renda, está provocando um maior aguçamento das contradições sociais, da miséria da classe pobre, dominada e explorada do país.

É necessário desmascarar esse tipo de mensagem ideológica, pois se houvesse uma real igualdade entre os homens, poder-se-ia dizer que todos teriam posições sócio-econômicas iguais e, no entanto, não seriam iguais, por existirem importantes diferenças individuais.

O capítulo sete fala sobre as virtudes, mensagens morais sugerindo comportamentos virtuosos, que se encontram em quase todos os textos, entrelaçando-se com todos os outros temas. Os textos de leitura constituem contínuas exortações às crianças, no sentido de serem virtuosas, sugerindo sempre a virtude adequada a ser seguida; as virtudes na família e na escola, boas maneiras, padrões de comportamento burgueses quanto aos relacionamentos sociais, cujo desempenho é de difícil assimilação pelas crianças da classe social dominada que tiveram, provavelmente, um outro tipo de socialização primária em suas famílias de origem.

 Textos em geral elitistas, discriminatórios, colocando as crianças pobres na categoria dos inferiores e “sem educação”. Impõe-se arbitrariamente uma cultura dominante às crianças da classe pobre, alienando-as de considerá-la válida e não inferior, comparada com a cultura da classe dominante.

Há textos que utilizam o ambiente familiar para treinamento de virtudes: econômicas (para quem tem o que economizar); ordem, obediência, união. Trazem mensagens que abafam a iniciativa da criança de se rebelar contra a obediência excessiva e constante, dando-lhe oportunidade de comandar a si mesma, tornando-se menos irrequieta, mais atenta ao estudo, ao trabalho e aos conselhos dos pais e professores. Percebe-se um tipo de persuasão, que pode caracterizar-se como um tipo de violência sutil, pois obriga disfarçadamente a pessoa a incorporar tais valores à estrutura de sua personalidade, prometendo recompensas e não usando nenhum tipo de castigo.

A simbologia animal é utilizada para mostrar que o conformismo é a melhor atitude. A mensagem ideológica da passividade continua sendo divulgada, bem como que a violação da ordem constituída poderá ser absurda. Com isso, as crianças passam a aceitar uma visão imutável da realidade, o que não corresponde à verdade, pois o homem pode e deve manter relações de transformação com a natureza e com a sociedade.

No capítulo oito, Explicações Científicas, Nosella percebeu textos que, com dificuldade em explicar os fenômenos naturais, utilizam como explicações científicas uma fantasia prodigiosa., que muitas vezes censuram atitudes de curiosidade. A autora acredita que a descrição da realidade é mais atrativa por si mesma que histórias fantasiosas, no entanto, a descrição da realidade não facilita a transmissão de mensagens ideológicas e o esforço para descrever a realidade estrutura e desenvolve a mente da criança numa postura científica e crítica, o que não é do interesse da classe dominante.

O capítulo nove fala do Índio como personagem que se mantém vivo e presente, embora, na realidade, seja uma raça em processo de extinção. Narrações sobre o povo indígena e seu modo de viver apresentam caráter impessoal, aparentemente sem um julgamento de valor. No entanto, tais julgamentos, baseados na cultura branca, estão presentes. Salientam batalhas de índios, sem fazer paralelo com as guerras entre brancos. Os textos descrevem relacionamentos verticais entre brancos e índios, onde os primeiros são doadores da verdadeira cultura e os segundos, receptores ignorantes, civilizados à medida que vão assimilando a verdadeira e superior civilização; a branca. Apresentam falsa realidade, com o que se foge à verdade incômoda, à práxis sócio-econômica da classe dominante.

A finalidade do capítulo dez, Capas e Ilustrações, é evidenciar a função ideológica que as gravuras dos livros didáticos desempenham. É necessário observar que a mensagem visual se torna eficiente instrumento ideológico complementar dos textos, devido à sua força comunicativa, rapidez e impacto emotivo, muitas vezes maior que a comunicação escrita. Nosella coloca comentários ao lado de cada gravura com a finalidade de realçar o sentido ideológico das ilustrações.

Nas conclusões gerais, Nosella diz que o estudo da ideologia subjacente aos textos de leitura mostrou que todos os temas se relacionam intimamente, tornando-se cúmplices nas explicações e justificações de uma determinada visão de mundo. As idéias principais de cada tema constituem o núcleo comum de todos os temas.

O objetivo real da ideologia subjacente aos textos de leitura é o de criar um mundo relativamente coerente, justo e belo, no nível da imaginação, com função de mascarar um mundo real que, contraditório e injusto, é necessário para os interesses das classes hegemônicas.

Características constantes desse mundo imaginário são a estereotipação e a idealização, com a função de fixar fora do tempo e do espaço, modelos de comportamento, de relacionamento, de valores absolutos em si mesmos, afastando qualquer possibilidade de mudança das normas e dos comportamentos que funcionam como fonte de lucro para a classe dominante. Característica imutável desse mundo ilusório dos textos é a celebração do relacionamento vertical (doador-receptor) que se articula em todos os temas. Dentro desse esquema nota-se a relação de autoridade de pais sobre os filhos, do homem sobre a mulher, da Pátria sobre seus cidadãos, da natureza sobre o trabalhador, etc.

O objetivo último desse esquema é condicionar os seres a uma atitude de passividade diante do modelo de sociedade vigente.

Mais uma característica invariável do mundo imaginário descrito pelos textos analisados é a ausência de problemas na sociedade e na natureza, Qualquer tipo de problema, quando apresentado, já traz consigo, também, a solução.

Finalmente, a última característica desse mundo fantástico é a valorização dada a todo tipo de sacrifício. Evidentemente, com objetivo de suportar melhor, no conjunto da sociedade, o peso da alienação, da dominação e da exploração.

 

Comentários da Resenhista

 

Ler, refletir e analisar as conclusões específicas da autora fica a cargo de cada leitor. Hoje, mais que nunca, o estudo atento da obra completa de Nosella se faz necessário, principalmente pelos educadores comprometidos com a transformação social, que somente se dará a partir da conscientização efetiva da população, que não pode continuar a ser enganada por textos mágicos, por “pão e circo”.

Há que se considerar a oportunidade de uma proposta de não usar livros prontos, mas prepará-los. A aceitação de tal desafio depende da formação, competência e isenção dos professores. Alguns querem isso, mas não têm preparo para assumir tal compromisso. Outros ainda não despertaram; não perceberam a urgência da proposta e nem pensam em deixar a comodidade de seguir literalmente o livro didático. Em seu trabalho docente, muitas vezes não consideram a realidade dos alunos e da sociedade em que vivem, e ingenuamente continuam querendo impor um comportamento irrepreensível e acomodado, acrítico.

É inquestionável que a totalidade dos professores precisa ser preparada para lidar com situações de conflito que levam ao crescimento. Os docentes precisam respeitar e valorizar a si mesmos e aos alunos que mais precisam da escola, fornecendo-lhes os instrumentos da criatividade, da crítica, da reflexão para que se apropriem dos conhecimentos e transformem a sociedade. Contribui para isso o fato de que, hoje, os alunos já não ficam passivos e querem mudar a relação com os professores e com o mundo. Nesse novo cenário,  os professores precisam se adaptar  às novas relações, precisam assumir seu papel, inclusive de impor limites, e continuar contribuindo, mas de maneira diferente, consciente, competente, despojada, autônoma, como mediadores entre o aluno e o objeto de conhecimento.

 

 

 



* Graduada em Letras (Uni-Sant’Anna) e em Pedagogia (FE-USP); Especialização em Psicopedagogia (PUC-SP) e Tratamento e Escolarização de Crianças com DGD (USP); e Mestrado em Educação (UNISAL). Psicopedagoga experiente, com atuação significativa em Psicopedagogia Institucional, além de ser Supervisora aposentada do Município de São Paulo e Professora da Uni-Sant’Anna.